Tenho coisas demais para dizer
e ainda mais para ouvir.
E talvez tudo em mim precise de perdão
se tu fores capaz.
Se não me perdoas,
perdoa o meu corpo.
São as minhas mãos
que procuram as tuas no vazio das noites.
São os meus lábios famintos
à espera do sabor da tua boca.
São os meus olhos
que insistem em te buscar.
Os ouvidos, sedentos da tua voz.
Os braços, abertos,
à espera do peso do teu abraço.
E há, no fundo de mim,
uma carne inquieta
que reconhece a tua ausência
como se reconhece a fome.
Na minha vida,
o silêncio dói.
O tempo passa devagar,
as horas se arrastam,
os dias amanhecem sem alegria.
Odeia-me, mas volta.
Meu coração dispara
sempre que imagina teus passos regressando.
Se não podes me perdoar,
perdoa o meu corpo.
Ele não sabe viver sem o teu calor.
Meus lábios não aprenderam a esquecer os teus.
Meu olhar não aceita um mundo sem a tua presença.
Não te peço amor.
Odeia-me, se isso te acalmar.
Pensa em mim com raiva,
mas pensa.
Deseja-me com fúria.
Toma-me sem piedade.
Marca-me com teu peso,
com tua força,
com a urgência que sempre foi nossa.
Faz de mim tua mulher outra vez
e deixa-me adormecer no espaço do teu braço,
onde a dor se cala.
Vem com teu conflito.
Ama-me com ódio.
Odeia-me com desejo.
Que eu te recebo inteira,
sem orgulho,
sem defesa,
sem medo.
Porque o meu corpo ainda te reconhece
e ainda te espera.
Autora: Isabel van Gurp
