De Cara Pintada
Correu pela boca dessa gente
que a liberdade ia chegar.
O medo cedeu lugar à coragem,
e sonhos sufocados
começaram a respirar.
No coração dessa gente,
a sensação de ser livre
bateu mais forte.
Os manifestos escritos à margem
encontraram voz nos muros,
nas ruas,
nas calçadas,
no ar.
Os passantes sentiram a euforia,
abraçaram ideias,
seguiram pelas passeatas.
E cada vez mais gente,
sem hesitar,
rompia o silêncio
pelo mesmo sonho,
pelo mesmo ideal.
A força crescia.
Havia intolerância.
Havia arrogância.
Homens de farda
perdiam o controle
das próprias armas.
O zigue-zague do poder
fraquejava diante daquela gente
de cara pintada.
Nas mãos deles
já não havia pólvora.
Havia flores.
Cores no rosto.
Esperança na alma.
Inocentes que lutavam por igualdade
pintavam o rosto de utopia.
O espaço antes ocupado pelo medo
foi tomado pela música,
pelo riso,
pelas palavras de ordem
que deixaram de servir ao ditador
para pertencer ao povo.
A liberdade aprendeu a ser dita
na boca dessa gente.
Entrou nos discursos,
nas conversas,
nas ideias.
Livre-arbítrio.
Democracia.
Igualdade.
Palavras que por tanto tempo
foram sussurradas,
agora caminhavam livres
pelas ruas.
Vieram vestidas de filosofia,
de consciência,
de futuro.
Imagens antes proibidas surgiram.
Vozes silenciadas voltaram a falar.
E aquilo que era censura,
opressão,
medo,
encontrou resistência.
As caras pintadas nasceram da luta.
A igualdade voltou a pulsar.
Nos palanques choravam
os que sangraram pela liberdade,
os que tombaram,
os que sobreviveram
para contar a história.
Havia algo no ar.
Algo novo.
Algo impossível de deter.
Os dias de luto recuavam.
A cortina de ferro se abria.
E o palco da vida
finalmente pertencia
ao povo
que nunca desistiu
de ser livre.
Correu pela boca dessa gente
que a liberdade ia chegar.
Mas ela não chegou sozinha.
Veio nos rostos.
Nas vozes.
Nas ruas.
De cara pintada.
E ficou.
Autora: Isabel van Gurp
