O vento sopra sua brisa.
Gentilmente rodopia,
erguendo os grãos de areia
num redemoinho de luz.
Nessa dança,
convida a folha
para ser sua parceira.
Vermelha de timidez,
ela não se faz de arrogante.
Com um gesto quase imperceptível,
entrega-se ao encanto.
Desprende-se do galho.
Lança um último olhar
ao tronco que a sustentou.
Sente remorso.
Sente medo.
Mas parte.
Deixa para trás
a árvore seca e silenciosa.
E pela primeira vez
sente-se livre.
O vento,
em seu passo sem compasso,
envolve-a no redemoinho.
Ela gira,
rodopia,
mistura-se às outras folhas
e segue com a rajada.
Sente-se leve.
Sente-se viva.
Voa.
Envolvida pela brisa,
dança uma valsa invisível
entre céu e terra.
De um lado para outro,
abandona-se
ao cálido abraço do vento,
que não a deixa cair.
Ele a leva para longe.
Muito longe.
Atravessa campos,
rios,
estradas,
cidades.
A folha vermelha conhece o mar.
Sente o gosto do sal.
Recebe na pele
os primeiros pingos da chuva.
Embriaga-se dos perfumes do mundo.
Corre sobre telhados,
desliza entre ruas,
espia janelas,
aprende o nome das nuvens.
Nunca havia ido tão longe.
Nunca havia vivido tanto.
Nessa aventura,
o vento,
seu amante,
não permite descanso.
Arrasta-a pelos horizontes.
Lança-a ao alto.
Faz descer.
Faz subir.
E ela se entrega
ao delírio do voo.
Ouve o assobio do vento.
O cheiro do mato.
O sabor da vida.
E acredita
que aquela dança
será eterna.
Mas o prazer dos ventos
é passageiro.
Quando seu desejo termina,
ele parte.
Sem promessas.
Sem despedidas.
Sem piedade.
Deixa-a no chão
entre folhas amareladas,
esquecidas pelo outono.
Folhas que também voaram.
Que também acreditaram.
Que também conheceram o céu.
E agora repousam,
silenciosas,
à espera do tempo.
A folha vermelha compreende.
O vento nunca pertenceu a ninguém.
Por isso segue viagem,
procurando outro galho,
outra folha,
outro encantamento.
E enquanto desaparece no horizonte,
leva consigo apenas a memória
de mais uma dança de outono.
Autora: Isabel van Gurp
















