Bem-te-vi
Hoje acordei
enrolada na minha tortura.
Queria embriagar-me da minha dor.
Não quero ver o sol.
Com certeza ele está brilhando
lá fora,
indiferente à minha angústia.
Os pássaros voam.
E o bem-te-vi canta.
Bem-te-vi.
Bem-te-vi.
Bem-te-vi.
Como se nada tivesse acontecido.
Meu corpo desperta pesado.
As lágrimas secaram
depois da longa noite
banhada por uma lua cheia
que assistiu,
silenciosa,
ao meu sofrimento.
Não quero ouvi-lo.
Não quero ouvir
o canto do bem-te-vi.
Tudo ao meu redor
parece triste.
Melancólico.
Estou enrolada
em meu próprio sofrimento.
Não encontro razão para sorrir.
Não encontro saída
para esta escuridão.
Nem mesmo o sol,
que resplandece lá fora,
trazendo vida
aos campos floridos.
Depois da chuva,
surge o arco-íris.
Colorido.
Vaidoso.
Espalhando lendas e beleza
sobre a paisagem.
E o bem-te-vi voa,
levando sua música eterna
pelos galhos,
pelos ventos,
pelos dias.
Bem-te-vi...
Bem-te-vi...
Trazendo vida.
Alegria.
Harmonia.
Será que o mundo não percebe
a minha dor?
Será que o bem-te-vi
não poderia silenciar por um instante
para enxergar meu sofrimento?
Queria que o arco-íris
perdesse as cores
e se tornasse cinzento como eu.
Que o mar esquecesse as ondas.
Que o sol permanecesse preso
atrás do horizonte.
Que a manhã nunca chegasse.
Que o rio não encontrasse o mar.
Que o vento deixasse de soprar.
Que o bem-te-vi
parasse de cantar
e aprendesse a ser triste
como eu.
Bem-te-vi...
Bem-te-vi...
Se o mundo compartilhasse
da minha angústia,
talvez eu me sentisse
menos sozinha.
Talvez fosse mais fácil
suportar a dor.
Mas hoje acordei
com minha tortura.
E sei,
ainda que não queira,
que a terra continuará girando.
A chuva continuará molhando os campos.
As plantas continuarão nascendo.
O arco-íris continuará brilhando
em algum lugar.
E o bem-te-vi
continuará assobiando.
Bem-te-vi...
Bem-te-vi...
Porque a vida,
mesmo quando dói,
não para.
Isabel van Gurp
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