quinta-feira, 14 de junho de 2012

Nos Tempos das Redes





Nos tempos das redes
fui lançada ao mar
sem saber nadar.

Fiquei presa nas fibras invisíveis,
quis fugir do encanto,
mas já estava enredada
nos teus feitiços.

Delgada foi a porção da magia
que chamaste de amor.
Uma dose mínima,
suficiente para me embriagar.

Sem perceber,
caí na rede de cerco,
na linha do tempo,
capturada num gesto,
num clique.

Perdi a noção do risco.
Fui fisgada pela boca,
como peixe em noite de lua cheia,
quando o mar prateia
e o sol ainda se esconde
no limite do horizonte.

Sem perceber,
abri múltiplas portas,
criei caminhos falsos
para alcançar teu rastro.

Esqueci que eu era sereia.
Caí na tua rede
longe dos teus olhos,
que me seguem sem me ver.

Onde quer que eu vá,
sinto tua vibração:
uma rede de arrasto
envolvendo corpo e mente.

Sinto o cheiro do mar,
do pescador,
escuto tua voz
em cada sinal.

Estou presa.

Procuro teu rosto na tela,
teu vestígio ativo,
teus traços espalhados
em superfícies luminosas.

Essa paixão me desestabiliza:
perdi o chão,
perdi a razão.

Viciei em te encontrar
num mundo que não me toca.

Perco minutos, horas, dias
nessa emboscada silenciosa.
Abro mensagens
esperando teu nome.
Acendo a espera
por um sinal teu.

Sei que estás presente,
em algum lugar do fluxo,
e retorno sempre
às tuas palavras.

Leio teus rastros
como quem lê oráculos.
E faço o pior:
crio máscaras
para te vigiar.

Morro de ciúmes
de presenças alheias,
de vozes que se aproximam,
de vidas que te alcançam.

Teu espaço virou meu labirinto.
Leio cada gesto,
cada silêncio,
cada ausência.

Me entreguei.

Nos tempos das redes,
fui lançada ao mar
sem saber nadar.


autora: Isabel van Gurp






sexta-feira, 8 de junho de 2012

Sol da minha terra








O Sol da Minha Terra

O sol que brilha na minha terra

nasce atrás do horizonte,

sobre águas claras,

desenhando os contornos dos morros

e colorindo as favelas

com tons de vermelho,

de amarelo

e de fogo alaranjado.

Vem devagar,

alastrando luz pelo céu,

erguendo-se como um deus antigo

que sobe ao seu altar.

Pinta o oceano,

avermelha o azul do mar,

e se eleva soberano,

como um Zeus tropical,

conquistando os morros

com suas cores douradas.

Espiritualiza o verde dos matos.

Desperta os pássaros

que celebram sua chegada

com cantos de alegria.

Devolve vida à atmosfera.

Aquece a terra.

Invade as frestas das janelas

e espalha-se pelas ruas

da cidade que ainda sonha

sob a proteção dos anjos.

O sol que brilha na minha terra

não nasce quadrado.

Não se esconde por longas noites.

Não teme nuvens escuras.

Nem se rende às estações.

Mesmo quando a chuva cai,

ele encontra um jeito de permanecer.

Mistura sua luz às gotas

e inventa arco-íris.

Pontes de cor

suspensas entre o céu e a terra.

Como notas musicais

escritas no infinito,

para lembrar aos homens

que a beleza ainda existe.

O sol da minha terra

não ilumina apenas os dias.

Ilumina a alma

de quem aprendeu a crescer

sob seu calor.

E mesmo quando estou distante,

é sua luz

que continua amanhecendo

dentro de mim.



autora: Isabel van Gurp