segunda-feira, 8 de junho de 2026

A Outra

 




A Outra

Louca.

Alucinada.

Sou a outra.

A que espera.

A que recebe sobras.

A que aprende

a se contentar com pouco.

Exijo nada.

Ou pelo menos

finjo que não exijo.

Sou a outra.

Escondo-me

nas armadilhas da vida,

nos horários vazios,

nas mensagens apagadas,

nos encontros que não podem existir

à luz do dia.

Aceito desculpas bobas.

Acredito nelas.

Ou finjo acreditar.

Porque às vezes

a mentira dói menos

do que a verdade.

Sou a outra.

A paciente.

A discreta.

A que espera.

A que compreende.

A que perdoa

antes mesmo do pedido.

Dizem que sou culpada.

Que destruo lares.

Que roubo felicidades.

Que mereço desprezo.

E talvez tenham razão.

Mas ninguém pergunta

o que ficou de mim

nessa história.

Ninguém vê

as noites vazias,

os telefonemas que não chegam,

os domingos sem nome,

as datas comemoradas sozinha.

Sou amante.

Sou a outra.

Feliz por um instante.

Esquecida no instante seguinte.

Vivo escondida

entre quatro paredes,

esperando o amor proibido

que nunca chega inteiro.

Mas me contento

com uma promessa.

Sempre a promessa.

A promessa de que um dia

será diferente.

A promessa de que um dia

ele ficará.

A promessa de que um dia

eu deixarei de ser a outra.

E talvez seja essa

a maior loucura.

Não amar o que não me pertence.

Mas continuar acreditando

que um dia

pertencerá.


Autora: Isabel van Gurp

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