A Outra
Louca.
Alucinada.
Sou a outra.
A que espera.
A que recebe sobras.
A que aprende
a se contentar com pouco.
Exijo nada.
Ou pelo menos
finjo que não exijo.
Sou a outra.
Escondo-me
nas armadilhas da vida,
nos horários vazios,
nas mensagens apagadas,
nos encontros que não podem existir
à luz do dia.
Aceito desculpas bobas.
Acredito nelas.
Ou finjo acreditar.
Porque às vezes
a mentira dói menos
do que a verdade.
Sou a outra.
A paciente.
A discreta.
A que espera.
A que compreende.
A que perdoa
antes mesmo do pedido.
Dizem que sou culpada.
Que destruo lares.
Que roubo felicidades.
Que mereço desprezo.
E talvez tenham razão.
Mas ninguém pergunta
o que ficou de mim
nessa história.
Ninguém vê
as noites vazias,
os telefonemas que não chegam,
os domingos sem nome,
as datas comemoradas sozinha.
Sou amante.
Sou a outra.
Feliz por um instante.
Esquecida no instante seguinte.
Vivo escondida
entre quatro paredes,
esperando o amor proibido
que nunca chega inteiro.
Mas me contento
com uma promessa.
Sempre a promessa.
A promessa de que um dia
será diferente.
A promessa de que um dia
ele ficará.
A promessa de que um dia
eu deixarei de ser a outra.
E talvez seja essa
a maior loucura.
Não amar o que não me pertence.
Mas continuar acreditando
que um dia
pertencerá.
Autora: Isabel van Gurp

