quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Perdoa Meu Corpo

 





Tenho coisas demais para dizer
e ainda mais para ouvir.
E talvez tudo em mim precise de perdão
se tu fores capaz.

Se não me perdoas,
perdoa o meu corpo.

São as minhas mãos
que procuram as tuas no vazio das noites.
São os meus lábios famintos
à espera do sabor da tua boca.
São os meus olhos
que insistem em te buscar.
Os ouvidos, sedentos da tua voz.
Os braços, abertos,
à espera do peso do teu abraço.

E há, no fundo de mim,
uma carne inquieta
que reconhece a tua ausência
como se reconhece a fome.

Na minha vida,
o silêncio dói.
O tempo passa devagar,
as horas se arrastam,
os dias amanhecem sem alegria.

Odeia-me, mas volta.

Meu coração dispara
sempre que imagina teus passos regressando.
Se não podes me perdoar,
perdoa o meu corpo.

Ele não sabe viver sem o teu calor.
Meus lábios não aprenderam a esquecer os teus.
Meu olhar não aceita um mundo sem a tua presença.

Não te peço amor.
Odeia-me, se isso te acalmar.
Pensa em mim com raiva,
mas pensa.

Deseja-me com fúria.
Toma-me sem piedade.
Marca-me com teu peso,
com tua força,
com a urgência que sempre foi nossa.

Faz de mim tua mulher outra vez
e deixa-me adormecer no espaço do teu braço,
onde a dor se cala.

Vem com teu conflito.
Ama-me com ódio.
Odeia-me com desejo.

Que eu te recebo inteira,
sem orgulho,
sem defesa,
sem medo.

Porque o meu corpo ainda te reconhece

e ainda te espera.


Autora: Isabel van Gurp 

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Asfalto em Estado Bruto

 




Hoje eu subi bem alto
na vertigem do meu asfalto.

Me confundi com as pegadas das multidões,
fluxos cruzados nas calçadas rachadas,
corpos em trânsito,
olhos baixos,
pressa alta.

Segui o eco das sirenes,
o código vermelho das buzinas,
a trilha sonora caótica
que invade o peito
sem pedir licença.

O barulho é sujo,
estridente,
excessivo 
mas essa poluição sonora
me abastece
de adrenalina
e desgaste.

Eu me reconheço nesse caos.

Vejo palavras em overdose:
outdoors, telas, avisos, alertas,
letras piscando,
propagandas gritando,
frases vazias
que cegam
e ainda assim me dizem
 você existe.

Respiro esse ar pesado.
Gosto.
Porque ele dói
e confirma que estou viva.

O corre eterno
do nunca parar,
do não estar,
do tropeçar na alegria
sem tempo de senti-la.

Hoje eu desci bem fundo
na ferida aberta do asfalto.

Vielas cinzentas,
sujeira colada na pele,
gente que sobrevive
do resto do resto
do nada.

Rostos sem endereço,
vidas sem mapa,
corpos atropelados
pela abundância distraída
que passa rápido
demais para ver.

Afogados em vícios,
nobres apenas
na dignidade das migalhas.

Hoje caminhei no calor do asfalto,
senti o suor de quem sustenta o dia
com as próprias mãos rachadas.

Me encarei nos espigões de vidro,
na soberba vertical da cidade,
na elegância fria
de quem corre em linha reta
fugindo do sentir.

Queriam ser eu.
Eu também, às vezes, quis não ser.

Hoje contemplei,
sem filtros,
a tristeza crua do meu asfalto.

Vi os ninguém
estendendo as mãos
por restos,
por olhares,
por reconhecimento.

Eles seguem
porque precisam.
Porque respirar ainda é resistência.

Estão entre as multidões
que passam por mim
sem perceber
que eu também
sou alguém.


Autora: Isabel van Gurp 

sábado, 27 de dezembro de 2025

Ainda

 




Ainda sinto

a dor
o grito
a alegria

tudo junto
no mesmo segundo
o instante
mais vivo
da minha vida

ainda sinto
teu corpo
dentro de mim
teus movimentos
teus chutes
ensinando-me
a esperar

queria ainda
carregar-te
no ventre
sentir tuas travessuras
antes do mundo
antes da luz
antes do tempo

teu olhar
carregava algo meu
e sempre carrega
é nele
que sou feliz
para sempre

te toquei
te vi
te tomei nos braços
pela primeira vez
e já te conhecia

o sangue que te dei
fez de ti
ser
fez de mim
mãe

nove meses
de corpo
anos de espera
uma eternidade de nós

ainda sinto
a dor
o grito
a alegria

meus seios pesados
cheios de vida
teu corpo nos meus braços
tua boca faminta
sabendo
onde buscar
o que precisava

a natureza sabia
tu sabias
eu te saciava
e em mim
nascia
a felicidade inteira

ouço ainda
tua respiração
sinto tua mão pequena
forte
segurando meu dedo

sabias
que eu era tua mãe

há um vínculo
há um segredo
há um acordo
silencioso
eterno

queria ouvir
teu suspiro
o corpo cansado
o pedido por mais
porque ainda havia

e eu era feliz
porque tu precisavas
de mim

dormias
barriga cheia
um fio de leite
na boca
eu limpava
com os dedos
sem nunca querer
te soltar

ficava ali
te embalando
porque separar-me de ti
era impossível

para mim
tu serás sempre

meu filho
meu anjo

ainda


Autora: Isabel van Gurp 

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Última estação: - Esgoto.

 





Me embalei nos gritos
dos surdos da madrugada,
na dança torta
dos loucos sem ar,
asfixiados pela própria escolha.

Me entreguei demais,
não voltei por nada.
Desisti sem tentar.
Tentei só pra não pensar.

Me joguei numa onda
sabendo que era esgoto.

Meu corpo flutuava,
a mente estourava
em mil cacos.

Sem rastro.
Sem nome.
Sem querer.

O que ficou pra trás
foi pouco.
Quase nada.

Poucos sabem quem fui.
Pouco importa quem sou.
Nem eu sei.

Talvez só o resto,
o resíduo,
o erro que sobrou na sarjeta.

Uma sombra andando
numa rua que não leva a lugar nenhum.

Não era mais dona de mim.
Era o que sobrava
de alguém.

Desisti por medo.
Me envolvi por curiosidade.
Me perdi por cansaço.

Prometeram viagem,
mas não tinha piloto.
Nem destino.

Eu sabia.
Sempre soube.
A última estação era o esgoto.

Me embalei nos gritos
dos viciados,
na euforia barata
comprada por trocados.

Migalhas de pó
pra tapar o buraco
que a sociedade cava
e finge não ver.

Por minutos,
me senti grande
no fundo do nada.

Subi no vagão
sem bilhete,
sem volta.

Descia cada vez mais fundo.

Até entender:
não era viagem.
Era queda.

Última estação.
Esgoto.

E eu ali,
despedaçada,
achando que aquilo
era viver mas morri aos poucos.


Autora: Isabel van Gurp 

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

Eu fugi de nós


 Fugi de mim,

abandonei minha própria sombra,
só para não te perder.

Fingi por ti,
para que teus olhos não vissem
o abismo que crescia em mim.

Sofri por nós,
por tudo que não fomos,
e por tudo que ainda doía
no silêncio que eu carregava.

No meu olhar
moravam palavras sufocadas,
presas na garganta da alma,
pedindo para existir.

No meu peito
havia um tremor constante,
um pedido, um grito,
um amor desesperado
proibido de nascer.

Na minha saudade
repousavam lembranças inventadas,
dias que nunca vivi,
abraços que só imaginei,
beijos que ficaram no limite do sonho.

Perdi-me no vazio
de tudo que desejei e calei.

No meu corpo,
um calor que nunca ofereci.
Na minha alma,
um gozo morto
antes mesmo de ser sentido.

Meus braços, vazios;
minha cama, silenciosa;
minhas noites, sem perdão.

Eu fugi de mim
para te preservar.
Eu fingi por ti
para não desmoronar.
Eu sofri por nós
como quem morre um pouco a cada dia.

E hoje carrego o peso
do que não vivi.
Um amor abortado pelo medo,
um caminho que desviei com as próprias mãos.

A verdade?
Não foi você que perdi.
Fui eu.

Fugir de mim,
fingir por ti,
sofrer por nós—
foi a forma mais lenta
e mais cruel
de morrer vivendo.


Autora: Isabel van Gurp

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

Posso

 





Eu posso quebrar o silêncio
com palavras que o vento desfaz,
mas quando encontro teus olhos,
eles sempre dizem bem mais.

Posso tocar teu peito
com desejo ardente e profundo,
mas é sentir teu corpo no meu
que dá novo sentido ao mundo.

Posso prometer-te eternidade,
amar-te além do amanhecer,
mas às vezes um só instante
vale mais do que um viver.

Posso seguir teus caminhos,
vigiar teus passos ao léu,
mas deixo ao destino o encontro:
ele escreve melhor do que eu.

Posso escolher ser só tua
por noites que não têm fim,
mas prefiro ser o instante
que te marca dentro de ti.

Posso dizer que te amo
em versos, cartas e flor,
mas é o gesto que te toca
que traduz melhor meu ardor.

E quando o adeus se aproxima,
eu não preciso falar:
basta um olhar que te busca,
para o teu olhar me achar.

Porque o amor que é verdadeiro
não se prende ao que se diz
vive no breve momento,
no silêncio que faz feliz.


Autora: Isabel van Gurp


Oração das Almas Gêmeas

 


Lua sagrada que caminha pelos céus,
guarda nossas almas neste véu de noite serena.

Ilumina nossos passos no escuro,
guia-nos pelas estrelas ancestrais,
conduz-nos de volta um ao outro,
sempre que nos perdermos pelas vidas.

Que nossa alma seja leve,
pura,
livre de medo,
livre de dor.

Que o amor que nos une
seja ponte entre mundos,
seja farol entre sombras,
seja verdade que atravessa séculos.

Lua sagrada, carrega nossa essência.
Que possamos voar pelos céus juntos,
de mãos dadas,
sem nunca nos abandonar.

Quando renascermos na Terra,
que seja lado a lado,
no tempo certo,
na vida certa,
com o coração desperto
para reconhecer o olhar
que sempre nos pertenceu.

Que sejamos sempre
luz que retorna,
destino que reencontra,
amor que não morre.

Assim seja entre o céu e a Terra,
assim seja em todas as vidas,
assim seja para sempre.
Somos almas gêmeas, hoje e além do tempo.

Amém 

Autora: Isabel van Gurp