segunda-feira, 8 de junho de 2026

A Outra

 




A Outra

Louca.

Alucinada.

Sou a outra.

A que espera.

A que recebe sobras.

A que aprende

a se contentar com pouco.

Exijo nada.

Ou pelo menos

finjo que não exijo.

Sou a outra.

Escondo-me

nas armadilhas da vida,

nos horários vazios,

nas mensagens apagadas,

nos encontros que não podem existir

à luz do dia.

Aceito desculpas bobas.

Acredito nelas.

Ou finjo acreditar.

Porque às vezes

a mentira dói menos

do que a verdade.

Sou a outra.

A paciente.

A discreta.

A que espera.

A que compreende.

A que perdoa

antes mesmo do pedido.

Dizem que sou culpada.

Que destruo lares.

Que roubo felicidades.

Que mereço desprezo.

E talvez tenham razão.

Mas ninguém pergunta

o que ficou de mim

nessa história.

Ninguém vê

as noites vazias,

os telefonemas que não chegam,

os domingos sem nome,

as datas comemoradas sozinha.

Sou amante.

Sou a outra.

Feliz por um instante.

Esquecida no instante seguinte.

Vivo escondida

entre quatro paredes,

esperando o amor proibido

que nunca chega inteiro.

Mas me contento

com uma promessa.

Sempre a promessa.

A promessa de que um dia

será diferente.

A promessa de que um dia

ele ficará.

A promessa de que um dia

eu deixarei de ser a outra.

E talvez seja essa

a maior loucura.

Não amar o que não me pertence.

Mas continuar acreditando

que um dia

pertencerá.


Autora: Isabel van Gurp

quarta-feira, 3 de junho de 2026

Primeira Neve






Primeira Neve

Nasce o sol.

Mais um dia

desperta no horizonte.

As cores da manhã

invadem a terra,

espalhando luz

sobre os campos,

as árvores

e os caminhos.

Vaga o contraste

entre o verde da natureza

e o dourado do sol.

Olhei pela janela.

Mas não havia cores.

Tudo era branco.

Sereno.

Reluzente.

Um tapete macio

estendido sobre a paisagem,

brilhando sob a luz tranquila

da manhã.

A neve havia chegado

durante a noite,

em silêncio,

sem anunciar sua presença.

Cobriu os telhados,

os jardins,

os galhos cansados das árvores,

os caminhos por onde ontem

a vida seguia apressada.

O mundo parecia dormir

sob um lençol de paz.

Até o vento caminhava devagar,

como se temesse quebrar

a delicadeza daquele instante.

Fiquei ali,

diante da janela,

olhando o milagre.

O branco dominava tudo,

mas não era ausência de cor.

Era a soma delas.

Era a pureza.

Era o silêncio transformado

em paisagem.

Então compreendi

que nem toda beleza

precisa florescer em vermelho,

amarelo ou azul.

Às vezes,

a beleza chega vestida de branco.

E basta.

Enquanto o sol subia lentamente,

fazendo a neve cintilar

como milhões de pequenos cristais,

meu coração também amanhecia,

encantado

com a simplicidade

de ver o mundo

renascer diferente.

Naquela manhã,

a natureza não me mostrou cores.

Mostrou-me paz.


Autora: Isabel van Gurp 

terça-feira, 2 de junho de 2026

Estou Indo ao Teu Encontro






Estou indo ao teu encontro.

Visto-me de branco,

como quem veste a própria esperança.

Meu vestido desliza sobre a terra

feito rio de luar,

bordado de rendas antigas

e pequenos brilhos

que dormiram anos

à espera deste dia.

Cada pedra cintila

como uma promessa guardada.

Cada dobra do tecido

carrega um sonho.

Caminho.

E o mundo parece saber.

As flores inclinam suas corolas,

os pássaros desenham círculos no céu,

e o vento,

com mãos invisíveis,

arruma meus cabelos

como uma mãe amorosa

antes da festa.

Vou ao teu encontro.

Há tanto tempo vou.

Talvez desde a infância,

quando acreditava

que os milagres moravam

atrás das estrelas.

Talvez desde sempre.

Os moinhos giram lentamente

sobre os campos dourados,

moendo distâncias,

transformando saudades em chegada,

esperas em destino.

O sol repousa sobre meus ombros.

Sua luz me veste

com um manto de alegria.

E eu avanço,

porque o coração conhece caminhos

que os olhos ainda não veem.

Colho tulipas pelo percurso.

Brancas para a paz.

Vermelhas para o amor.

Douradas para a eternidade.

Faço delas um buquê singelo,

pois os grandes sentimentos

não precisam de excesso.

Ainda não te vejo.

Mas tua presença me alcança

como perfume trazido pelo vento.

Sinto-te.

Como se tua alma

caminhasse ao meu encontro

muito antes dos teus passos.

Então o horizonte se abre.

E surgem muralhas antigas,

torres beijadas pela luz,

e um castelo erguido

entre o sonho e a memória.

Dele vens.

Montado em teu cavalo branco,

atravessando o tempo

com a serenidade dos que pertencem

ao lugar para onde seguem.

Trazes nos olhos

o brilho dos reencontros.

Como se já me conhecesses

de outras vidas,

de outros céus,

de alguma eternidade esquecida.

E quando enfim me alcanças,

o mundo silencia.

As flores silenciam.

Os pássaros silenciam.

Até o vento suspende o voo.

Porque há instantes

que são maiores que as palavras.

Seguras minhas mãos.

E tudo floresce.

Tudo encontra sentido.

As esperas.

As lágrimas.

Os sonhos.

Os anos.

Percebo então

que o amor verdadeiro

não chega de repente.

Ele caminha conosco,

em segredo,

durante toda a vida,

até revelar seu rosto.

Estou vestida de rainha.

Mas não por causa do vestido.

Nem das rendas.

Nem das pedras preciosas.

Sou rainha

porque amo.

E porque sou amada.

Acima de nós,

as estrelas acendem uma a uma

como velas de celebração.

E ouço,

muito ao longe,

a voz suave da fada madrinha

que um dia me fez acreditar:

— Algumas promessas foram escritas no céu.

Sorrio.

Porque agora sei.

Os contos de fadas existem.

Nem sempre nos livros.

Às vezes,

eles florescem discretamente

dentro da vida.

E tornam-se realidade.


Autora: Isabel van Gurp

O Tesouro Esquecido

 

O Tesouro Esquecido

Descobri, entre os labirintos do pensamento,
um caminho estreito
que eu jamais havia percorrido.

No fim dele,
escondido sob camadas de silêncio,
encontrei um mapa antigo,

amarelado pelo tempo,
guardado a sete chaves
num cofre que eu mesma construí.

Havia um tesouro.

Era a felicidade.

Passei a vida procurando-a.

Busquei-a nas esquinas do mundo,
nas mesas dos bares,
nos aeroportos de partidas e regressos.

Atravessei montanhas
que tocavam as nuvens,
cidades que nunca dormiam,
desertos onde o vento
apagava os rastros dos viajantes.

Subi aos céus
na ilusão de encontrar respostas.

Desci aos abismos
para conversar com meus medos.

Perguntei aos deuses.
Perguntei aos homens.

Procurei-a nos aplausos,
na fama,
nas vitrines iluminadas do sucesso.

Encontrei ouro.

Encontrei poder.

Encontrei multidões.

Mas a felicidade não morava ali.

Era como uma ave arisca:

quando eu pensava tocá-la,
ela levantava voo.

Vi a alegria passar por mim
como água entre os dedos,
como perfume levado pelo vento,
como uma estrela cadente
que ilumina e desaparece.

Por muito tempo
confundi felicidade com euforia,
amor com posse,
grandeza com poder.

E, nessa busca sem descanso,
afastei-me de mim mesma.

Até que um dia parei.

Pela primeira vez,
não corri atrás de nada.

Escutei apenas
o som da minha própria respiração.

E foi então que encontrei o mapa.

Compreendi que o tesouro
nunca esteve escondido nas estradas,
nem nas montanhas,
nem nos templos,
nem nas mãos de ninguém.

O tesouro sempre esteve aqui.

Dentro de mim.

Esperando, em silêncio,

que eu voltasse para casa.


Autora: Isabel van Gurp