Antes de me perder no teu olhar
perguntei à cigana
quem eras tu.
Ela tomou minha mão,
leu as linhas,
consultou os astros
e sorriu
como quem já sabia.
Disse que nós
reviveríamos uma grande paixão,
que nosso amor era ancestral,
de sempre e para sempre.
Que em cada vida
marcávamos um novo encontro
entre o céu e o mar,
e reescrevíamos nossa história
multiplicada
como estrelas na imensidão.
Assinalávamos o caminho do retorno
a cada alvorada,
no limiar da noite e do dia,
entre vida e morte,
em todo horizonte
onde o sol se despede.
Viajávamos juntos,
guiados pelas estrelas,
lançados ao infinito,
e sempre voltávamos
unidos e amantes,
inseparáveis na vida
e além dela.
Voltamos sempre
para viver o mesmo amor.
A cigana decifrava
nas linhas da mão
e no mapa dos astros:
— Uma vez,
foste africana:
pele negra e lisa,
lábios fartos, sorriso que acalenta,
cabelo crespo preso em turbante,
vestido tecido de cores vivas,
olhos profundos como a noite,
andar de onça felina.
E tu,
eras homem branco,
explorador europeu,
pele clara, olhos azuis,
cabelos dourados, traços finos,
que atravessou o mar
em busca de riquezas e diamantes
e se encantou
com a beleza da mulher menina.
E assim ficaste
em terra africana.
A cigana virou outra carta
e continuou a ler:
— Noutra vida,
o mundo parou.
Desafiamos tradições,
o clero, a filosofia.
Fomos Abelardo e Heloísa.
Do amor escondido
nasceu Astrolábio.
Mesmo tu sendo padre,
eu, noviça,
vivemos um dos amores mais eternos,
e nossos corpos selaram a união
sob as abóbadas da Notre-Dame,
gravados para sempre
nas estrelas
e no sepulcro.
Noutra existência,
enfrentamos guerras de famílias,
ódios herdados,
destinos impostos.
Chamaram-me Julieta,
a ti, Romeu.
Para vencer o ódio,
entregamos a vida à eternidade
e morremos, mais uma vez,
nos braços um do outro
para sempre.
No palco
e na realidade.
A cigana prosseguiu,
alisando minha mão
e conversando com os astros:
— Tu foste eternizada como rainha.
Um imperador, Shah Jahan,
ergueu para ti
o Taj Mahal
sobre teu túmulo,
a maior prova de amor
que o mundo já conheceu.
— Também foste Lady Marian,
aristocrata e nobre,
e tu,
um fora da lei,
ladrão dos bosques,
herói dos pobres:
Robin Hood.
Nosso amor já mudou destinos,
quebrou juramentos
de reis e rainhas.
Confidenciou a cigana:
— Fomos Tristão e Isolda.
Disseram que foi a poção,
mas não.
Foi o primeiro olhar.
Era reencontro
de muitas vidas.
Não podíamos viver separados.
Escandalizamos o mundo
como amantes proibidos
e escolhemos a morte
para nascer de novo.
Mas também fomos apenas
homem e mulher,
gente comum,
vidas simples
e felizes.
— E agora? — perguntei à cigana.
Ela sorriu
como quem guarda um segredo antigo
e respondeu:
— Como sempre:
amor.
