A Terra Natal Nunca Parte
A terra natal nunca parte.
Viaja escondida na bagagem,
entre fotografias amareladas,
lembranças guardadas em silêncio
e memórias
que o tempo não consegue apagar.
A saudade desperta na culinária,
no perfume de um prato antigo,
no sabor que atravessa décadas
e devolve a infância
à mesa do presente.
Desperta na dança,
na música,
no ritmo que adormece no corpo,
mas nunca desaparece.
Até mesmo na história,
que ressurge de repente,
quando os olhos se fecham
e o batuque distante
faz os pés recordarem
caminhos que jamais esqueceram.
A terra natal viaja conosco.
Muda de continente,
atravessa oceanos,
aprende novos idiomas,
descobre outras paisagens,
outros invernos,
outros céus.
Mas continua morando
no mesmo lugar:
dentro do coração.
Porque o imigrante pode partir da sua terra,
mas sua terra
jamais parte dele.
Ela permanece
nas palavras que escapam sem tradução,
nas canções que ainda emocionam,
nos cheiros que despertam lembranças,
nas lágrimas discretas
que às vezes chegam sem aviso.
Nós saímos,
mas não partimos.
Ou talvez partamos,
sem jamais sair por inteiro.
Há sempre um pedaço de nós
caminhando pelas ruas da infância,
olhando o mesmo horizonte,
ouvindo as vozes que ficaram,
escutando ao longe
os sons de um tempo
que ainda vive dentro de nós.
E por mais distante que seja a viagem,
por mais longa que seja a ausência,
continuamos sonhando
com o lugar de onde viemos.
Porque a terra natal
não é apenas um lugar.
É uma morada invisível
que carregamos para sempre.
E para onde quer que a vida nos leve,
uma parte de nós
estará sempre voltando.
Mas talvez eu ainda não tenha dito tudo.
Não falei dos amigos.
Nem da família.
Nem das vozes conhecidas
que continuam ecoando na memória.
Não falei dos abraços
que ficaram esperando.
Das cadeiras vazias
ao redor da mesa.
Dos aniversários perdidos.
Dos encontros adiados
por oceanos inteiros.
Também não falei do pertencimento.
Da estranha sensação
de morar em um lugar
enquanto uma parte da alma
continua habitando outro.
De viver entre dois mundos.
De amar duas terras.
De carregar dois horizontes
dentro do mesmo peito.
Porque a maior saudade do imigrante
nem sempre é da terra.
Às vezes,
é das pessoas.
Dos rostos.
Dos risos.
Das mãos que um dia seguraram as nossas.
Porque, no fim,
não são apenas as ruas,
as paisagens
ou as cidades
que guardamos conosco.
São aqueles que as transformaram
em memória.
São aqueles que lhes deram significado.
São aqueles que fizeram
daquela terra,
um lar.
Autora: Isabel van Gurp
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