domingo, 22 de março de 2026

A Terra Natal Nunca Parte

 



A Terra Natal Nunca Parte

A terra natal nunca parte.

Viaja escondida na bagagem,

entre fotografias amareladas,

lembranças guardadas em silêncio

e memórias

que o tempo não consegue apagar.

A saudade desperta na culinária,

no perfume de um prato antigo,

no sabor que atravessa décadas

e devolve a infância

à mesa do presente.

Desperta na dança,

na música,

no ritmo que adormece no corpo,

mas nunca desaparece.

Até mesmo na história,

que ressurge de repente,

quando os olhos se fecham

e o batuque distante

faz os pés recordarem

caminhos que jamais esqueceram.

A terra natal viaja conosco.

Muda de continente,

atravessa oceanos,

aprende novos idiomas,

descobre outras paisagens,

outros invernos,

outros céus.

Mas continua morando

no mesmo lugar:

dentro do coração.

Porque o imigrante pode partir da sua terra,

mas sua terra

jamais parte dele.

Ela permanece

nas palavras que escapam sem tradução,

nas canções que ainda emocionam,

nos cheiros que despertam lembranças,

nas lágrimas discretas

que às vezes chegam sem aviso.

Nós saímos,

mas não partimos.

Ou talvez partamos,

sem jamais sair por inteiro.

Há sempre um pedaço de nós

caminhando pelas ruas da infância,

olhando o mesmo horizonte,

ouvindo as vozes que ficaram,

escutando ao longe

os sons de um tempo

que ainda vive dentro de nós.

E por mais distante que seja a viagem,

por mais longa que seja a ausência,

continuamos sonhando

com o lugar de onde viemos.

Porque a terra natal

não é apenas um lugar.

É uma morada invisível

que carregamos para sempre.

E para onde quer que a vida nos leve,

uma parte de nós

estará sempre voltando.

Mas talvez eu ainda não tenha dito tudo.

Não falei dos amigos.

Nem da família.

Nem das vozes conhecidas

que continuam ecoando na memória.

Não falei dos abraços

que ficaram esperando.

Das cadeiras vazias

ao redor da mesa.

Dos aniversários perdidos.

Dos encontros adiados

por oceanos inteiros.

Também não falei do pertencimento.

Da estranha sensação

de morar em um lugar

enquanto uma parte da alma

continua habitando outro.

De viver entre dois mundos.

De amar duas terras.

De carregar dois horizontes

dentro do mesmo peito.

Porque a maior saudade do imigrante

nem sempre é da terra.

Às vezes,

é das pessoas.

Dos rostos.

Dos risos.

Das mãos que um dia seguraram as nossas.

Porque, no fim,

não são apenas as ruas,

as paisagens

ou as cidades

que guardamos conosco.

São aqueles que as transformaram

em memória.

São aqueles que lhes deram significado.

São aqueles que fizeram

daquela terra,

um lar.


Autora: Isabel van Gurp 

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