Entre encontros e ausências
Isabel van Gurp
Se um dia eu perder a minha alma não busquem no céu, nem tão pouco no inferno, procurem a minha alma nas letras, que com certeza ela vai estar encurralada entre os versos que eu transformei em poesias....Isabel van Gurp
por Isabel van Gurp
Quero navegar pelo tempo
Sem sentir as horas passar.
Quero navegar pela vida
Sem pesar a alma de ser.
Quero navegar pelo mar
Sem temer as ondas
Que flutuam no oceano.
Quero navegar pelo corpo,
Sentindo o gozo de viver
De fruir
Uma paixão eterna.
Isso eu preciso sentir:
A amplitude do orgasmo do querer,
Na frequência entre os limites
Das diferenças.
Dando crédito
À esfera celeste
Do norte ao sul,
Do leste ao oeste.
E com a bússola desordenada,
Quero caminhar até o céu
Sem tocar nas estrelas.
Não é por nada...
Prefiro ir sem o brilho
E encontrar o infinito.
E dizer em voz alta:
— Amei, vivi, gozei.
Me transformei em astro
Em águas límpidas, a transluzir
Em mulher.
Vamos embora... vamos,
Não sei para onde, não sei pra quê.
Talvez para ontem,
Onde tudo era você e eu,
Onde o sorriso era fácil,
E o futuro, um segredo bonito de esconder.
Vamos embora... vamos,
Buscar no passado nosso futuro,
Buscar esperança no brilho do olhar,
Sonhar, sonhar, sonhar —
Só nós, nós dois,
Que um dia fomos tudo, fomos mais.
A paixão nos incendiava,
Corria em nosso sangue,
Água nenhuma apagava,
O fogo dos nossos corpos em brasas,
As velas acendiam o que o amor já queimava.
Éramos nós, o resplendor,
Éramos nós, o calor,
As almas misturadas no gozo,
Onde o inferno era apenas um ponto de partida.
A noite se confundia com o dia,
A lua nos acordava,
E os lobos uivavam a nossa dança,
Num canto de paixão sem rumo,
Sem chão, sem teto, só amor.
Vamos embora... vamos!
Esquecer o presente, viver a eternidade,
Pegar meus sonhos, pegar sua mão,
E ser ninguém no papel do mundo,
Mas juntos, ser alguém feliz.
Autora
Isabel van Gurp
Há pedras no caminho.
Sim, muitas pedras.
Encontramo-las no correr dos dias:
Algumas, arremessadas contra nós;
Outras, a favor.
Elas nos desmontam,
Nos ferem, nos magoam, nos aniquilam.
Reze uma Ave Maria.
Guarde-as.
Algumas batem e retornam,
Outras permanecem,
Outras se desmancham ao longo do tempo.
Há pedras que são lavas
Explodem como vulcões em nossas vidas.
Em sua passagem, erguem escudos e pavores.
Reze uma Ave Maria.
Guarde-as.
Algumas pedras desviam caminhos,
Outras, em metamorfose, fazem nascer o saber.
E muitas, semeiam o conhecer.
Dentro do ventre, tornam-se crias.
E, por conceber, acolhem.
A semente germina:
Um novo ser se desenha.
Dissemina, entremeia.
Nos seios, transforma-se em pedras de leite,
Banquete de vida
À boquinha faminta que amamentarás.
Guarde-as.
Reze uma Ave Maria.
As pedras que são lapidadas
Transformam-se em brilhantes.
As mais preciosas são dádivas da natureza:
Do nascimento ao envelhecimento,
Lapidadas pela vida,
Até tornarem-se diamantes eternos.
As pedras vêm e vão
Não importa se jogadas, colhidas, plantadas,
Brotadas ou ofertadas.
Jamais atires a primeira pedra.
Reze uma Ave Maria.
Guarde-as.
Cada uma delas.
Com elas construirás fortalezas,
E talvez um império.
Guarde uma a uma,
Pois são joias raras,
Mesmo aquelas que queimaram tua pele,
Que chegaram como poeira, gás, cinza ou areia.
Guarde-as.
Sê alquimista:
Com navalha fina, esculpe diamantes,
Transmuta dor em sabedoria.
Minhas pedras — todas as que encontrei
Guardo-as em minha galeria.
Pois será com elas
Que construirei meu castelo.
Enquanto isso, rezo:
Uma Ave Maria.
Autora: Isabel van Gurp
Ainda chove lá fora.
Sinto o cheiro da terra molhada,
E os raios escapam pelas frestas das nuvens,
Num azul que pinta o céu escuro entre trovoadas.
Fico em silêncio,
Escutando cada gota da tempestade,
Ritmando os murmúrios das névoas,
Calando o canto dos pássaros,
Que se aninham em seus ninhos
E se protegem dos ventos —
De suas vidas,
Das rajadas repentinas do ar,
Das incertezas das brumas,
No seu acalento, esperando passar.
Me sinto um pássaro nesta noite,
Que, na escuridão das neblinas,
Se encolhe em seu ninho,
Esperando a chuva passar,
Para então poder voar
Rumo a um novo dia de sol.
Autora: Isabel van Gurp