sábado, 25 de maio de 2019

Entre mim e você




Entre mim e você,
Existe o nós.

Entre mim e você,
Há um começo.
Uma história
Que se escreveu sem promessas,
Mas com presença.

Entre mim e você,
Nasceram filhos,
Jorraram emoções,
Conquistamos o que parecia impossível.

Entre mim e você,
Houve derrotas,
Mas nelas, aprendemos.

E nas vitórias,
Crescemos.

Entre mim e você,
Eu sou.
Entre você e mim,
Você é.

E entre nós dois,
Existe amor.

Simples,
Forte,
Infinito.

Eu te amo.
Você me ama.
Nós nos amamos.

Entre mim e você,
Há um amor verdadeiro.
Daqueles que pertencem
À própria existência de ser —
Sempre.




Autora: Isabel van Gurp

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

Um conto




Um conto

Vou cruzando meu caminho
Em pontos,
Traçando meu mapa.

Em cada esquina,
Faço um conto.

E penso nas fadas,
Para sublinhar os desencontros
E acentuar, em reflexo,
As brincadeiras do destino,
As causalidades dos reencontros.

Busco, no nó,
O fio perdido.
Cuidadosamente, emendo
Os traços dos pontos.

E ponto por ponto,
Faço um manto —

Uma colcha de retalhos,
Sublinhada com laços.

E a cada passo, encontro:
Um chão,
Um fio,
Um mapa.

Meu destino,
Feito pelas minhas mãos.

Cada passo que a gente dá costura um pedaço do que somos.
Às vezes, seguimos pontos invisíveis… 

outras vezes, pegamos de volta um fio perdido e recomeçamos.
A vida é bordada por nossas mãos 

Ponto por ponto, conto por conto.

Aqui está o meu

Depois eu conto.




Autora: Isabel van Gurp

Filha do sol

Quem é filha do sol
Não se queima na terra.
Se bronzeia na sombra,
Deixa a alma ferver
Aos cinquenta graus
E bebe água de coco
Para matar a sede.

Sente-se um peixe fora d’água
Quando chove,
Mas nunca deixa de nadar.

Caminha com os pés descalços
Sobre brasas e calçadas,
E acende a si mesma
Mesmo quando apagam as luzes.

É de fogo 
Mas não incendeia por vingança.
Aquece, ilumina,
E arde no próprio ritmo.

O que chamam de exagero,
Ela chama de vida.
O que chamam de drama,
Ela chama de intensidade.

Quem é filha do sol
Não foge do espelho,
Não espera resgate,
Não teme tempestade.

Ela não precisa de céu claro:
Ela é o amanhecer.


Autora: Isabel van Gurp

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Meu Presidente




Lavou a alma na bandeira,
Tremulou em passos lentos
O orgulho e a paixão de ser
Que o faziam filho da terra.

Escudou-se com aquele pano,
Se armou de couraça.

E mais uma vez,
Deixou cair no corpo desfalecido
A coragem de quem nunca nega
Quem tu és.

Cobriu-se em cores, com um manto.
E se foi… aos poucos,
A cada passo...
Sentindo-se partir —
E, ao mesmo tempo,
Ficar entre nós.

Beijou-a mais uma vez.
E chorou.

O espírito d’gente vagou
Pelas pequenas ruelas,
Passou em sombras,
Refletindo nos muros a solidão
De quem parte só.

Escoavam, no labirinto,
Palavras...
A fé, a crença e a pátria.

Olhou mais uma vez para o alto.
De longe —
E parecia tão longe.
Tão distante. Tão real.

Lá estava o reflexo da armadura
Surreal,
Que batia ao vento,
Hasteada no mastro.

Pensou:
— Fui guerreiro, e lutei por ti.

Nós pensamos:
— Por nós.

Seus pensamentos foram aplaudidos,
De pé, em glória.
Seus atos, reconhecidos por nós.
Idolatrados pela memória.

E o preço foi alto.
E o agradecimento,
Para sempre,
Estará na história.

Mas,
Fincando na dor da democracia
Que se perdia entre as paredes das grades,
Sentiu-se só na multidão.

Gotejava sangue.
Enodava o pendão.
E na estrela,
Estampa-se o seu rosto 

De um homem nobre, senhor.
Estendido no orgulho,
Seu brio de ser
Nos orgulha também.

Nobre cavalheiro,
Perdão, meu presidente.
O preço encarece.

Benfeitor dos seus atos,
Digo mais uma vez:

— Perdão! Perdão!
Presidente Lula,
O povo agradece
Sua luta.



Autora: Isabel van Gurp (com alma, coragem e gratidão em cada verso) 









sábado, 17 de fevereiro de 2018

Ciente em ser




A tua boca

É o meu pecado.

Sinto, em minhas mãos,
Desenrolar o vício
Do meu entender:
Em querer ser tua.

Te escuto em chamas.
Nua.
Completamente nua.

Ciente do meu corpo,
Que aclama,
Flutuo pelos meus próprios pelos,
Em toques inquietantes
E apelos.

Escreves em mim
A palavra do querer,
Que envolve
Em ti,
Em mim,
Em si.

Paixão que vende a alma,
Da carne, do corpo —
Ostenta o desejo de viver
Na plenitude de enriquecer
Pelo amor.

O gosto de ter em mim
O gozo do prazer,
A razão do meu viver:

A blasfêmia sagrada
De te querer.


Autora: Isabel van Gurp

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Bailarina




N’alma flutua
Uma menina,
Que reflete,
No espelho,
Uma mulher.

Na imagem,
Dança
Uma bailarina
Que move os pés
Em círculos
E deixa o corpo voar
Sem sair do chão.

Faz gestos suaves,
Dá piruetas,
Roda em giros
Que voltam para si.

Em cada passo,
Um retorno ao centro.
Em cada volta,
Um pedaço de sonho.

E com um simples sorriso,
Levanta-se
Para os aplausos

Do sucesso,
Do sonho,
De uma menina
Que ainda não saiu
Do seu mundo
E, tampouco,
Do seu quarto.


Autora: Isabel van Gurp

 

Pedras no caminho




Há pedras no caminho.
Sim, muitas pedras.

Encontramo-las no correr dos dias:
Algumas, arremessadas contra nós;
Outras, a favor.

Elas nos desmontam,
Nos ferem, nos magoam, nos aniquilam.
Reze uma Ave Maria.
Guarde-as.

Algumas batem e retornam,
Outras permanecem,
Outras se desfazem com o tempo.

Há pedras que são lavas
Explodem como vulcões em nossas vidas.
Em sua passagem, erguem escudos e pavores.
Reze uma Ave Maria.
Guarde-as.

Algumas desviam caminhos,
Outras, em metamorfose, geram saber.
E muitas, semeiam o conhecer.

Dentro do ventre, tornam-se crias.
E, por conceber, acolhem.
A semente germina:
Um novo ser se desenha.
Dissemina, entremeia.

Nos seios, transforma-se em pedras de leite
Banquete de vida
À boquinha faminta que amamentarás.
Guarde-as.
Reze uma Ave Maria.

As pedras que são lapidadas
Transformam-se em brilhantes.
As mais preciosas são dádivas da natureza:
Do nascimento ao envelhecimento,
Lapidadas pela vida,
Até tornarem-se diamantes eternos.

As pedras vêm e vão.
Não importa se jogadas, colhidas, plantadas,
Brotadas ou ofertadas.

Jamais atires a primeira pedra.
Reze uma Ave Maria.
Guarde-as.
Cada uma delas.

Com elas construirás fortalezas
E talvez, um império.

Guarde uma a uma.
Pois são joias raras.
Mesmo aquelas que queimam sua pele,
Que chegaram como poeira, gás, cinza ou areia.

Guarde-as.
Sê alquimista:
Com navalha fina, esculpe diamantes.
Transmutado em sabedoria.

Minhas pedras
Todas as que encontrei
Guardo-as em minha galeria.

Pois será com elas
Que construirei meu castelo.

Enquanto isso, rezo:
Uma Ave Maria.


Autora: Isabel van Gurp