segunda-feira, 8 de junho de 2026

A Outra

 




A Outra

Louca.

Alucinada.

Sou a outra.

A que espera.

A que recebe sobras.

A que aprende

a se contentar com pouco.

Exijo nada.

Ou pelo menos

finjo que não exijo.

Sou a outra.

Escondo-me

nas armadilhas da vida,

nos horários vazios,

nas mensagens apagadas,

nos encontros que não podem existir

à luz do dia.

Aceito desculpas bobas.

Acredito nelas.

Ou finjo acreditar.

Porque às vezes

a mentira dói menos

do que a verdade.

Sou a outra.

A paciente.

A discreta.

A que espera.

A que compreende.

A que perdoa

antes mesmo do pedido.

Dizem que sou culpada.

Que destruo lares.

Que roubo felicidades.

Que mereço desprezo.

E talvez tenham razão.

Mas ninguém pergunta

o que ficou de mim

nessa história.

Ninguém vê

as noites vazias,

os telefonemas que não chegam,

os domingos sem nome,

as datas comemoradas sozinha.

Sou amante.

Sou a outra.

Feliz por um instante.

Esquecida no instante seguinte.

Vivo escondida

entre quatro paredes,

esperando o amor proibido

que nunca chega inteiro.

Mas me contento

com uma promessa.

Sempre a promessa.

A promessa de que um dia

será diferente.

A promessa de que um dia

ele ficará.

A promessa de que um dia

eu deixarei de ser a outra.

E talvez seja essa

a maior loucura.

Não amar o que não me pertence.

Mas continuar acreditando

que um dia

pertencerá.


Autora: Isabel van Gurp

quarta-feira, 3 de junho de 2026

Primeira Neve






Primeira Neve

Nasce o sol.

Mais um dia

desperta no horizonte.

As cores da manhã

invadem a terra,

espalhando luz

sobre os campos,

as árvores

e os caminhos.

Vaga o contraste

entre o verde da natureza

e o dourado do sol.

Olhei pela janela.

Mas não havia cores.

Tudo era branco.

Sereno.

Reluzente.

Um tapete macio

estendido sobre a paisagem,

brilhando sob a luz tranquila

da manhã.

A neve havia chegado

durante a noite,

em silêncio,

sem anunciar sua presença.

Cobriu os telhados,

os jardins,

os galhos cansados das árvores,

os caminhos por onde ontem

a vida seguia apressada.

O mundo parecia dormir

sob um lençol de paz.

Até o vento caminhava devagar,

como se temesse quebrar

a delicadeza daquele instante.

Fiquei ali,

diante da janela,

olhando o milagre.

O branco dominava tudo,

mas não era ausência de cor.

Era a soma delas.

Era a pureza.

Era o silêncio transformado

em paisagem.

Então compreendi

que nem toda beleza

precisa florescer em vermelho,

amarelo ou azul.

Às vezes,

a beleza chega vestida de branco.

E basta.

Enquanto o sol subia lentamente,

fazendo a neve cintilar

como milhões de pequenos cristais,

meu coração também amanhecia,

encantado

com a simplicidade

de ver o mundo

renascer diferente.

Naquela manhã,

a natureza não me mostrou cores.

Mostrou-me paz.


Autora: Isabel van Gurp 

terça-feira, 2 de junho de 2026

Estou Indo ao Teu Encontro






Estou indo ao teu encontro.

Visto-me de branco,

como quem veste a própria esperança.

Meu vestido desliza sobre a terra

feito rio de luar,

bordado de rendas antigas

e pequenos brilhos

que dormiram anos

à espera deste dia.

Cada pedra cintila

como uma promessa guardada.

Cada dobra do tecido

carrega um sonho.

Caminho.

E o mundo parece saber.

As flores inclinam suas corolas,

os pássaros desenham círculos no céu,

e o vento,

com mãos invisíveis,

arruma meus cabelos

como uma mãe amorosa

antes da festa.

Vou ao teu encontro.

Há tanto tempo vou.

Talvez desde a infância,

quando acreditava

que os milagres moravam

atrás das estrelas.

Talvez desde sempre.

Os moinhos giram lentamente

sobre os campos dourados,

moendo distâncias,

transformando saudades em chegada,

esperas em destino.

O sol repousa sobre meus ombros.

Sua luz me veste

com um manto de alegria.

E eu avanço,

porque o coração conhece caminhos

que os olhos ainda não veem.

Colho tulipas pelo percurso.

Brancas para a paz.

Vermelhas para o amor.

Douradas para a eternidade.

Faço delas um buquê singelo,

pois os grandes sentimentos

não precisam de excesso.

Ainda não te vejo.

Mas tua presença me alcança

como perfume trazido pelo vento.

Sinto-te.

Como se tua alma

caminhasse ao meu encontro

muito antes dos teus passos.

Então o horizonte se abre.

E surgem muralhas antigas,

torres beijadas pela luz,

e um castelo erguido

entre o sonho e a memória.

Dele vens.

Montado em teu cavalo branco,

atravessando o tempo

com a serenidade dos que pertencem

ao lugar para onde seguem.

Trazes nos olhos

o brilho dos reencontros.

Como se já me conhecesses

de outras vidas,

de outros céus,

de alguma eternidade esquecida.

E quando enfim me alcanças,

o mundo silencia.

As flores silenciam.

Os pássaros silenciam.

Até o vento suspende o voo.

Porque há instantes

que são maiores que as palavras.

Seguras minhas mãos.

E tudo floresce.

Tudo encontra sentido.

As esperas.

As lágrimas.

Os sonhos.

Os anos.

Percebo então

que o amor verdadeiro

não chega de repente.

Ele caminha conosco,

em segredo,

durante toda a vida,

até revelar seu rosto.

Estou vestida de rainha.

Mas não por causa do vestido.

Nem das rendas.

Nem das pedras preciosas.

Sou rainha

porque amo.

E porque sou amada.

Acima de nós,

as estrelas acendem uma a uma

como velas de celebração.

E ouço,

muito ao longe,

a voz suave da fada madrinha

que um dia me fez acreditar:

— Algumas promessas foram escritas no céu.

Sorrio.

Porque agora sei.

Os contos de fadas existem.

Nem sempre nos livros.

Às vezes,

eles florescem discretamente

dentro da vida.

E tornam-se realidade.


Autora: Isabel van Gurp

O Tesouro Esquecido

 

O Tesouro Esquecido

Descobri, entre os labirintos do pensamento,
um caminho estreito
que eu jamais havia percorrido.

No fim dele,
escondido sob camadas de silêncio,
encontrei um mapa antigo,

amarelado pelo tempo,
guardado a sete chaves
num cofre que eu mesma construí.

Havia um tesouro.

Era a felicidade.

Passei a vida procurando-a.

Busquei-a nas esquinas do mundo,
nas mesas dos bares,
nos aeroportos de partidas e regressos.

Atravessei montanhas
que tocavam as nuvens,
cidades que nunca dormiam,
desertos onde o vento
apagava os rastros dos viajantes.

Subi aos céus
na ilusão de encontrar respostas.

Desci aos abismos
para conversar com meus medos.

Perguntei aos deuses.
Perguntei aos homens.

Procurei-a nos aplausos,
na fama,
nas vitrines iluminadas do sucesso.

Encontrei ouro.

Encontrei poder.

Encontrei multidões.

Mas a felicidade não morava ali.

Era como uma ave arisca:

quando eu pensava tocá-la,
ela levantava voo.

Vi a alegria passar por mim
como água entre os dedos,
como perfume levado pelo vento,
como uma estrela cadente
que ilumina e desaparece.

Por muito tempo
confundi felicidade com euforia,
amor com posse,
grandeza com poder.

E, nessa busca sem descanso,
afastei-me de mim mesma.

Até que um dia parei.

Pela primeira vez,
não corri atrás de nada.

Escutei apenas
o som da minha própria respiração.

E foi então que encontrei o mapa.

Compreendi que o tesouro
nunca esteve escondido nas estradas,
nem nas montanhas,
nem nos templos,
nem nas mãos de ninguém.

O tesouro sempre esteve aqui.

Dentro de mim.

Esperando, em silêncio,

que eu voltasse para casa.


Autora: Isabel van Gurp

domingo, 22 de março de 2026

A Terra Natal Nunca Parte

 



A Terra Natal Nunca Parte

A terra natal nunca parte.

Viaja escondida na bagagem,

entre fotografias amareladas,

lembranças guardadas em silêncio

e memórias

que o tempo não consegue apagar.

A saudade desperta na culinária,

no perfume de um prato antigo,

no sabor que atravessa décadas

e devolve a infância

à mesa do presente.

Desperta na dança,

na música,

no ritmo que adormece no corpo,

mas nunca desaparece.

Até mesmo na história,

que ressurge de repente,

quando os olhos se fecham

e o batuque distante

faz os pés recordarem

caminhos que jamais esqueceram.

A terra natal viaja conosco.

Muda de continente,

atravessa oceanos,

aprende novos idiomas,

descobre outras paisagens,

outros invernos,

outros céus.

Mas continua morando

no mesmo lugar:

dentro do coração.

Porque o imigrante pode partir da sua terra,

mas sua terra

jamais parte dele.

Ela permanece

nas palavras que escapam sem tradução,

nas canções que ainda emocionam,

nos cheiros que despertam lembranças,

nas lágrimas discretas

que às vezes chegam sem aviso.

Nós saímos,

mas não partimos.

Ou talvez partamos,

sem jamais sair por inteiro.

Há sempre um pedaço de nós

caminhando pelas ruas da infância,

olhando o mesmo horizonte,

ouvindo as vozes que ficaram,

escutando ao longe

os sons de um tempo

que ainda vive dentro de nós.

E por mais distante que seja a viagem,

por mais longa que seja a ausência,

continuamos sonhando

com o lugar de onde viemos.

Porque a terra natal

não é apenas um lugar.

É uma morada invisível

que carregamos para sempre.

E para onde quer que a vida nos leve,

uma parte de nós

estará sempre voltando.

Mas talvez eu ainda não tenha dito tudo.

Não falei dos amigos.

Nem da família.

Nem das vozes conhecidas

que continuam ecoando na memória.

Não falei dos abraços

que ficaram esperando.

Das cadeiras vazias

ao redor da mesa.

Dos aniversários perdidos.

Dos encontros adiados

por oceanos inteiros.

Também não falei do pertencimento.

Da estranha sensação

de morar em um lugar

enquanto uma parte da alma

continua habitando outro.

De viver entre dois mundos.

De amar duas terras.

De carregar dois horizontes

dentro do mesmo peito.

Porque a maior saudade do imigrante

nem sempre é da terra.

Às vezes,

é das pessoas.

Dos rostos.

Dos risos.

Das mãos que um dia seguraram as nossas.

Porque, no fim,

não são apenas as ruas,

as paisagens

ou as cidades

que guardamos conosco.

São aqueles que as transformaram

em memória.

São aqueles que lhes deram significado.

São aqueles que fizeram

daquela terra,

um lar.


Autora: Isabel van Gurp 

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Perdoa Meu Corpo

 





Tenho coisas demais para dizer
e ainda mais para ouvir.
E talvez tudo em mim precise de perdão
se tu fores capaz.

Se não me perdoas,
perdoa o meu corpo.

São as minhas mãos
que procuram as tuas no vazio das noites.
São os meus lábios famintos
à espera do sabor da tua boca.
São os meus olhos
que insistem em te buscar.
Os ouvidos, sedentos da tua voz.
Os braços, abertos,
à espera do peso do teu abraço.

E há, no fundo de mim,
uma carne inquieta
que reconhece a tua ausência
como se reconhece a fome.

Na minha vida,
o silêncio dói.
O tempo passa devagar,
as horas se arrastam,
os dias amanhecem sem alegria.

Odeia-me, mas volta.

Meu coração dispara
sempre que imagina teus passos regressando.
Se não podes me perdoar,
perdoa o meu corpo.

Ele não sabe viver sem o teu calor.
Meus lábios não aprenderam a esquecer os teus.
Meu olhar não aceita um mundo sem a tua presença.

Não te peço amor.
Odeia-me, se isso te acalmar.
Pensa em mim com raiva,
mas pensa.

Deseja-me com fúria.
Toma-me sem piedade.
Marca-me com teu peso,
com tua força,
com a urgência que sempre foi nossa.

Faz de mim tua mulher outra vez
e deixa-me adormecer no espaço do teu braço,
onde a dor se cala.

Vem com teu conflito.
Ama-me com ódio.
Odeia-me com desejo.

Que eu te recebo inteira,
sem orgulho,
sem defesa,
sem medo.

Porque o meu corpo ainda te reconhece

e ainda te espera.


Autora: Isabel van Gurp 

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Asfalto em Estado Bruto

 




Hoje eu subi bem alto
na vertigem do meu asfalto.

Me confundi com as pegadas das multidões,
fluxos cruzados nas calçadas rachadas,
corpos em trânsito,
olhos baixos,
pressa alta.

Segui o eco das sirenes,
o código vermelho das buzinas,
a trilha sonora caótica
que invade o peito
sem pedir licença.

O barulho é sujo,
estridente,
excessivo 
mas essa poluição sonora
me abastece
de adrenalina
e desgaste.

Eu me reconheço nesse caos.

Vejo palavras em overdose:
outdoors, telas, avisos, alertas,
letras piscando,
propagandas gritando,
frases vazias
que cegam
e ainda assim me dizem
 você existe.

Respiro esse ar pesado.
Gosto.
Porque ele dói
e confirma que estou viva.

O corre eterno
do nunca parar,
do não estar,
do tropeçar na alegria
sem tempo de senti-la.

Hoje eu desci bem fundo
na ferida aberta do asfalto.

Vielas cinzentas,
sujeira colada na pele,
gente que sobrevive
do resto do resto
do nada.

Rostos sem endereço,
vidas sem mapa,
corpos atropelados
pela abundância distraída
que passa rápido
demais para ver.

Afogados em vícios,
nobres apenas
na dignidade das migalhas.

Hoje caminhei no calor do asfalto,
senti o suor de quem sustenta o dia
com as próprias mãos rachadas.

Me encarei nos espigões de vidro,
na soberba vertical da cidade,
na elegância fria
de quem corre em linha reta
fugindo do sentir.

Queriam ser eu.
Eu também, às vezes, quis não ser.

Hoje contemplei,
sem filtros,
a tristeza crua do meu asfalto.

Vi os ninguém
estendendo as mãos
por restos,
por olhares,
por reconhecimento.

Eles seguem
porque precisam.
Porque respirar ainda é resistência.

Estão entre as multidões
que passam por mim
sem perceber
que eu também
sou alguém.


Autora: Isabel van Gurp 

sábado, 27 de dezembro de 2025

Ainda

 




Ainda sinto

a dor
o grito
a alegria

tudo junto
no mesmo segundo
o instante
mais vivo
da minha vida

ainda sinto
teu corpo
dentro de mim
teus movimentos
teus chutes
ensinando-me
a esperar

queria ainda
carregar-te
no ventre
sentir tuas travessuras
antes do mundo
antes da luz
antes do tempo

teu olhar
carregava algo meu
e sempre carrega
é nele
que sou feliz
para sempre

te toquei
te vi
te tomei nos braços
pela primeira vez
e já te conhecia

o sangue que te dei
fez de ti
ser
fez de mim
mãe

nove meses
de corpo
anos de espera
uma eternidade de nós

ainda sinto
a dor
o grito
a alegria

meus seios pesados
cheios de vida
teu corpo nos meus braços
tua boca faminta
sabendo
onde buscar
o que precisava

a natureza sabia
tu sabias
eu te saciava
e em mim
nascia
a felicidade inteira

ouço ainda
tua respiração
sinto tua mão pequena
forte
segurando meu dedo

sabias
que eu era tua mãe

há um vínculo
há um segredo
há um acordo
silencioso
eterno

queria ouvir
teu suspiro
o corpo cansado
o pedido por mais
porque ainda havia

e eu era feliz
porque tu precisavas
de mim

dormias
barriga cheia
um fio de leite
na boca
eu limpava
com os dedos
sem nunca querer
te soltar

ficava ali
te embalando
porque separar-me de ti
era impossível

para mim
tu serás sempre

meu filho
meu anjo

ainda


Autora: Isabel van Gurp 

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Última estação: - Esgoto.

 





Me embalei nos gritos
dos surdos da madrugada,
na dança torta
dos loucos sem ar,
asfixiados pela própria escolha.

Me entreguei demais,
não voltei por nada.
Desisti sem tentar.
Tentei só pra não pensar.

Me joguei numa onda
sabendo que era esgoto.

Meu corpo flutuava,
a mente estourava
em mil cacos.

Sem rastro.
Sem nome.
Sem querer.

O que ficou pra trás
foi pouco.
Quase nada.

Poucos sabem quem fui.
Pouco importa quem sou.
Nem eu sei.

Talvez só o resto,
o resíduo,
o erro que sobrou na sarjeta.

Uma sombra andando
numa rua que não leva a lugar nenhum.

Não era mais dona de mim.
Era o que sobrava
de alguém.

Desisti por medo.
Me envolvi por curiosidade.
Me perdi por cansaço.

Prometeram viagem,
mas não tinha piloto.
Nem destino.

Eu sabia.
Sempre soube.
A última estação era o esgoto.

Me embalei nos gritos
dos viciados,
na euforia barata
comprada por trocados.

Migalhas de pó
pra tapar o buraco
que a sociedade cava
e finge não ver.

Por minutos,
me senti grande
no fundo do nada.

Subi no vagão
sem bilhete,
sem volta.

Descia cada vez mais fundo.

Até entender:
não era viagem.
Era queda.

Última estação.
Esgoto.

E eu ali,
despedaçada,
achando que aquilo
era viver mas morri aos poucos.


Autora: Isabel van Gurp 

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

Eu fugi de nós


 Fugi de mim,

abandonei minha própria sombra,
só para não te perder.

Fingi por ti,
para que teus olhos não vissem
o abismo que crescia em mim.

Sofri por nós,
por tudo que não fomos,
e por tudo que ainda doía
no silêncio que eu carregava.

No meu olhar
moravam palavras sufocadas,
presas na garganta da alma,
pedindo para existir.

No meu peito
havia um tremor constante,
um pedido, um grito,
um amor desesperado
proibido de nascer.

Na minha saudade
repousavam lembranças inventadas,
dias que nunca vivi,
abraços que só imaginei,
beijos que ficaram no limite do sonho.

Perdi-me no vazio
de tudo que desejei e calei.

No meu corpo,
um calor que nunca ofereci.
Na minha alma,
um gozo morto
antes mesmo de ser sentido.

Meus braços, vazios;
minha cama, silenciosa;
minhas noites, sem perdão.

Eu fugi de mim
para te preservar.
Eu fingi por ti
para não desmoronar.
Eu sofri por nós
como quem morre um pouco a cada dia.

E hoje carrego o peso
do que não vivi.
Um amor abortado pelo medo,
um caminho que desviei com as próprias mãos.

A verdade?
Não foi você que perdi.
Fui eu.

Fugir de mim,
fingir por ti,
sofrer por nós—
foi a forma mais lenta
e mais cruel
de morrer vivendo.


Autora: Isabel van Gurp

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

Posso

 





Eu posso quebrar o silêncio
com palavras que o vento desfaz,
mas quando encontro teus olhos,
eles sempre dizem bem mais.

Posso tocar teu peito
com desejo ardente e profundo,
mas é sentir teu corpo no meu
que dá novo sentido ao mundo.

Posso prometer-te eternidade,
amar-te além do amanhecer,
mas às vezes um só instante
vale mais do que um viver.

Posso seguir teus caminhos,
vigiar teus passos ao léu,
mas deixo ao destino o encontro:
ele escreve melhor do que eu.

Posso escolher ser só tua
por noites que não têm fim,
mas prefiro ser o instante
que te marca dentro de ti.

Posso dizer que te amo
em versos, cartas e flor,
mas é o gesto que te toca
que traduz melhor meu ardor.

E quando o adeus se aproxima,
eu não preciso falar:
basta um olhar que te busca,
para o teu olhar me achar.

Porque o amor que é verdadeiro
não se prende ao que se diz
vive no breve momento,
no silêncio que faz feliz.


Autora: Isabel van Gurp


Oração das Almas Gêmeas

 


Lua sagrada que caminha pelos céus,
guarda nossas almas neste véu de noite serena.

Ilumina nossos passos no escuro,
guia-nos pelas estrelas ancestrais,
conduz-nos de volta um ao outro,
sempre que nos perdermos pelas vidas.

Que nossa alma seja leve,
pura,
livre de medo,
livre de dor.

Que o amor que nos une
seja ponte entre mundos,
seja farol entre sombras,
seja verdade que atravessa séculos.

Lua sagrada, carrega nossa essência.
Que possamos voar pelos céus juntos,
de mãos dadas,
sem nunca nos abandonar.

Quando renascermos na Terra,
que seja lado a lado,
no tempo certo,
na vida certa,
com o coração desperto
para reconhecer o olhar
que sempre nos pertenceu.

Que sejamos sempre
luz que retorna,
destino que reencontra,
amor que não morre.

Assim seja entre o céu e a Terra,
assim seja em todas as vidas,
assim seja para sempre.
Somos almas gêmeas, hoje e além do tempo.

Amém 

Autora: Isabel van Gurp

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Te esperei sempre

 





Te esperei.
Te esperei por tantos caminhos,
por tantas vidas,
por tantos dias que o tempo nem sabe contar.
Te esperei como quem guarda no peito
um sol que ainda não nasceu,
mas brilha, insistente,
na luz de um desejo antigo.

Te esperei
porque teu nome já vivia em mim
antes de eu saber pronunciá-lo.
Tua sombra caminhava ao lado da minha,
teu passo ecoava no meu silêncio,
teu sorriso era promessa
na curva do meu sonho.

Te esperei apaixonada:
com o coração aos pulos,
com a alma acesa,
com os olhos cheios de respostas
antes das perguntas.
Te esperei sabendo que,
no instante em que te encontrasse,
meu mundo todo faria sentido 
como uma história que finalmente
reencontra a página certa.

E quando te vi,
me reconheci no teu olhar
como quem volta para casa
depois de séculos de ausência.

Mas também,
te esperei com o corpo,  maduro, febril, inteiro.
Te esperei com a pele acesa
e a respiração curta,
com a certeza de que tu saberias
ler meus desejos
antes mesmo de eu sussurrá-los.

Te esperei nua de medos,
desvestida de cautelas,
pronta para ser tua
na língua quente dos beijos,
na geografia secreta das mãos,
no altar profundo do toque
que só dois corpos que se pertencem conhecem.

Te esperei sabendo que teu abraço
seria abrigo, sentença e libertação.
Que tua boca chamaria a minha
para um destino inevitável.
Que teu desejo completaria o meu
como fogo encontra ar.

Mas entre todos os modos de te esperar,
o mais profundo, o mais doce,
o mais meu 
foi te esperar com ternura.

Te esperei suave, calma,
com sonhos simples e grandes:
uma xícara de café dividida,
um sorriso entregue pela manhã,
dois passos que caminham juntos
em qualquer direção.

Te esperei no gesto cotidiano,
na calma,
na doçura,
no toque que não arde 
acolhe.

Te esperei com amor limpo,
amor que não exige,
amor que floresce,
amor que reconhece.

Te esperei em todas as formas possíveis.
Apaixonada,
para te amar com a alma.
Erótica,
para te amar com o corpo.
Romântica,
para te amar com a vida.

E quando finalmente chegaste,
não houve dúvida,
nem medo,
nem retorno.

Só a certeza antiga e profunda:
eu te esperei porque tu eras o meu destino.

E agora que te tenho,
a espera virou casa,
abraço,
pele,
paz,
fogo,
poesia.

Agora que te tenho,
não esperei em vão.

Agora que te tenho,
sou inteira 
em ti.


Autora: Isabel van Gurp

sexta-feira, 24 de outubro de 2025

O Sol Que Brilha Na Minha terra



 O Sol Que Brilha Na Minha terra



O sol que brilha na minha terra
nasce atrás do horizonte,
nas águas claras desperta,
desenhando morros, pontes e fontes 

Colorindo as favelas com suas cores 
vermelhas, amarelas, alaranjadas 
vem aos poucos, alastra o céu,
subindo ao altar como um deus,
dourando o oceano,
avermelhando o azul do mar.

Nasce do ventre das ondas,
como um deus que ressurge em chama,
faz do além um altar
onde o mundo inteiro se inflama.

Pinta as águas de cobre e laranja,
derrama fogo nas serras,
e cada raio que avança
é reza viva sobre a terra.

O sol da minha terra  nasce e  desperta.
Abre os olhos do dia com dedos de ouro,
espalha sobre os morros sua manta aberta,
escorre pelas vielas, cancelas
e doura os telhados tortos.

Aos poucos conquista os morros
com suas cores alaranjadas,
espiritualiza o verde dos matos,
alegra os pássaros 
que cantam, assobiam,
dão vida à atmosfera,
aquecem a terra.

Invade com seus raios
as frestas das janelas, cúbicos das quebradas 

alastrando-se pelas ruas da minha cidade.

Desce leve, passa rente,
bate forte no peito da gente.

No brilho da lata, no trem, no sinal,
há poesia em cada quintal.
Quem ainda dorme,
com seus pecados, fome e segredos,
foge da luz 
mas o sol rasga a neblina
e renasce, altivo e inteiro.

O sol que brilha na minha terra
acorda o moleque do lado da laje,
a mãe solo no barraco,
espalha clarão nas calçadas da feira.

Ele não nasce quadrado,
não teme a sombra,
ri das nuvens que o desafiam,
atravessa a tempestade,
cria arco-íris de alegria.

O sol do meu Rio é marrento, esperto,
bate de frente, não foge ao perigo,
ignora a fumaça, rasga as cinzas,
faz a razão um samba bonito.

Não conhece o tédio,
nem se prende ao relógio:
nasce sempre um sorriso
vence o medo e encontra um jeitinho  

O sol da minha terra tem alma,
fala a língua da esperança,
anda descalço nas ruas,
brinca de luz com as crianças.

Invade os becos, brinca de rei,
faz da miséria um bloco, um desfile, uma lei.
Nos barracos renasce em cada sorriso 
porque o sol do meu Rio é puro improviso.

E quando o dia se despede,
com o peito vermelho no mar,
ele se curva sobre o morro,
escuta os aplausos,
e aos poucos se derrete
atrás do infinito 

para, em silêncio,

Ao ver a lua passar 


Autora: Isabel van Gurp

Se um Dia Eu Voltar







 Se um Dia Eu Voltar


Se um dia eu voltar,
não voltarei pelo azul do mar,
nem pelo sol escaldante
que, no auge do verão,
queima minha terra sem piedade
e deixa a areia da praia em ebulição,
o asfalto da cidade fervendo
como se fosse brasa,
tostando os pés nus
sem compaixão.

Se um dia eu voltar,
não voltarei pela beleza sem igual,
aquela que faz meu Rio
ser pátria tão idolatrada,
cantada em versos e prosas,
clamada em samba e carnaval.

Se um dia eu voltar,
voltarei por uma avenida
colorida, viva,
repleta de sonhos, alegrias,
palhaços e arlequins 
histórias contadas em ritmo,
que sempre terminam
numa quarta-feira
que chamam de cinzas.

Voltarei pelo cheiro da chuva
que cobre os morros,
que desce nervosa pelas ladeiras,
arrastando tudo com sua força,
deixando pra trás... nada.
Nada 
para aquela gente que perde tudo
nas chuvas de verão,
menos a alegria de viver
e recomeçar.

Se um dia eu voltar,
voltarei por uma escola animada,
nascida do morro,
onde o povo, sem nada,
fabrica sonhos de ouro e beleza.

Voltarei para tremer nesse ritmo quente
que queima os pés na areia da praia,
sem dó,
que faz qualquer um sambar.

Voltarei para entender
por que essa gente 
mesmo perdendo tudo no temporal,
mesmo vendo a esperança levada pelas águas 
ainda vai para a avenida,
dança, canta e sorri.

São felizes,
talvez não por muito tempo,
mas são.

Se um dia eu voltar,
voltarei por aquela multidão
que segue, cegamente,
num ritmo frenético,
com roupas coloridas,
pagas com sacrifício,
com suor e coragem.

Mesmo sem nada,
cantam a felicidade,
por algumas horas,
em alguns minutos,
ou no relâmpago de um segundo
que toca minha saudade,
enche meus olhos,
e me faz lembrar 

que eu sou parte dessa gente,
que muitas vezes, sem nada,
segue em frente.


Autora: Isabel van Gurp 



Tempo, Meu Senhor



Tempo, Meu Senhor 



Tempo,
Senhor,
Bença.

Eu reconheço o seu poder,
sua força,
Senhor do tempo.

Tempo, tempo, tempo...
Tudo tem seu tempo,
sua hora,
seu momento.

Com a medida do tempo,
com a massa e o comprimento 
tempo.

Tempo é a medida da ciência,
grande e essencial,
é o sistema métrico da vida,
universal.

Tempo, tempo, tempo...
Com a medida do tempo
aprende-se os melhores ingredientes
para dar sabor à existência.
O conhecimento se tempera com o tempo,
e a receita se chama experiência.

Tempo, tempo, tempo...
Tempo é mestre,
ele dá lição,
ele ensina.
Tempo é sábio.

Senhor,
Bença,
meu mestre.
Eu sei do seu valor,
da sua medida.
Curvo-me à sua sabedoria,
à sua erudição.

Tempo, tempo, tempo...
Ele é mágico,
ele conserta 
às vezes os erros,
às vezes os pecados,
às vezes as palavras,
às vezes as medidas.

Tempo acerta,
tempo esclarece.
Tempo é dono da verdade.
Ele é piedoso.
Ele perdoa.
Restaura.
Arruma.
Prepara.
Ele cura.
Às vezes, mata.

Tempo, tempo, tempo...
O tempo tem o dom do envelhecimento 
que é nobre.
Com ele, amadurecemos.
Com o tempo, se sabe a verdade.
Tempo tem o poder de retirar as máscaras,
de revelar as mentiras e as trapaças
nos bailes da vida.

Tempo é necessário
para viver sem mágoas,
sem feridas.
Tempo é o creme que cura
as cicatrizes da alma.

Tempo faz esquecer.
Mas também tem memória.
Tempo reconhece
a importância do conhecimento,
que só se aprende
com a vida  e com o tempo.

Só com o tempo
se pode reconhecer o verdadeiro amor.

Tempo, tempo, tempo...
Tempo é uma criança
que brinca com a vida.
Tempo é meu senhor.

Tempo, tempo, tempo...
Bença.
Minha vida está nas suas mãos.

Tempo é meu senhor.
Bença.


quinta-feira, 23 de outubro de 2025

Celebração do Tempo




Me orgulho dos teus cabelos grisalhos,

que vejo nascer,
entre meus dedos,
a cada ano.

Sinto, no teu olhar,
a resposta do tempo 
chama-se amadurecimento.
É o enriquecimento de um dicionário
que passa, página a página,
pelas histórias das nossas vidas.

Vejo, no teu semblante,
a resposta serena
das realizações,
das vitórias e das glórias.

E, como tudo não é perfeito,
existe também o ícone da superação,
as tristezas que nos moldaram,
as batalhas que vencemos juntos.

Hoje, vivemos um momento
de celebração.
Celebramos o amor que resistiu,
as rugas que contam capítulos,
os fios prateados que brilham como medalhas.

Celebramos o que fomos,
o que somos,
e o que ainda seremos 
porque o tempo, meu amor,
não envelhece o sentimento.
Apenas o lapida,
o torna mais puro,
mais verdadeiro,
mais nosso.


Autora: Isabel van Gurp

Entre o Sonho e o Acordar


Quando estou aqui, com teus olhos,
olhando o infinito,
assistindo o mar,
trago o sol para mim.

Entre perfeitas linhas e cores,
busco na realidade
o ato do sonho 
de quem acorda e fecha os olhos
para dormir de novo.

Quero voltar ao sonho estando desperta,
com as imagens e desejos
que flutuam pela vida e pela mente.
Quero dormir outra vez,
voltar às últimas imagens do sonho,
preciso me lembrar onde parei
para continuar o sonho...

Mas o sonho já não é o mesmo.
A maré o levou com suas ondas,
espalhou lembranças
pelas areias do tempo.

Procuro teus olhos,
e neles encontro o reflexo
daquilo que vivi sem perceber 
um instante de eternidade
em que o amor era simples
e o silêncio, puro.

Adormeço outra vez,
não no sono,
mas no teu olhar,
onde o sonho se refaz,
e o tempo se curva
para que eu possa permanecer 
entre o que foi,
o que é,
e o que ainda quero sonhar.


Autora: Isabel van Gurp 



terça-feira, 26 de agosto de 2025

Constelação do desejo




 Constelação do desejo

Que as tuas palavras se escondam
entre meus lábios,
como estrelas tímidas
guardadas no véu da noite.

Que exploda meu desejo
no calor do teu corpo,
como um sol que desperta
e devora horizontes.

Que meus delírios dancem
com as tuas fantasias,
em órbitas secretas
onde giram planetas invisíveis.

Que meu orgasmo floresça
junto ao teu êxtase,
como lua cheia que rompe o silêncio,
inundando de luz o mar do meu ser.

Que meu gozo me leve
ao paraíso sideral,
onde o tempo não existe,
e somos apenas estrelas em combustão.

Entre teus braços sou universo,
sou cometa em chama,
sou mulher que renasce em galáxias,
sou feliz em ti.


Autora: Isabel van Gurp

domingo, 24 de agosto de 2025

Livres (O braço, a alma e o povo brasileiro)

 



O braço, a alma e o povo brasileiro

Estão nas ruas,
Contra o golpe.

O sangue que jorra no chão
É vermelho 
A mesma cor da bandeira
Que ostenta a estrela:
tão bela,
tão reluzente,
que brilha na noite,
nas cores que queimam
a memória dos companheiros
que morreram nos porões da ditadura.

Não foram esquecidos.
Jamais.
Eles estão entre nós.

O caminho busca a verdade,
o tempo não nega:
a certeza de que democracia e liberdade
estão entre nós.
E serão sempre
o recomeço
de um país livre,
igual, digno e soberano.

A estrela que brilha esta noite
não é de um homem,
nem tão pouco de uma mulher,
mas de um povo
que luta para ser livre.

Essa certeza é o direito:
a democracia
sempre vencerá.

Os arrogantes,
o ódio,
os que clamam pelo fim,
morrerão gritando.

Mas o fim será a nossa vitória:
ser homens,
ser mulheres,
ser livres.

A estrela somos nós 
tão livres em pensamento,
decidindo a nossa história.

Não vai ter golpe!





Autora: Isabel van Gurp