terça-feira, 18 de setembro de 2012

Minha Senhora





Perdoa-me, minha senhora,
terei que partir agora.
Deixo-te as nossas lembranças,
as nossas fotos,
já desbotadas pelo tempo,
mas ainda vivas
na história que fomos.

História de uma vida
guardada nas dobras da memória.

Perdoa-me, minha senhora,
eu parto em desalento.
Sofro por te deixar.
Lutei todos os minutos
para ficar.

Perdoa-me, minha senhora,
eu parto em silêncio sagrado.
Lutei em cada segundo
para permanecer ao teu lado.
Mas há chamados que não se recusam,
portais que só a alma atravessa,
e a vida, quando vira prece,
também se despe da matéria espessa.

Escolhi ficar perto de ti,
mesmo depois do véu.
Será meu corpo na terra,
mas meu sopro… seguirá no céu.

Talvez eu esteja no vento
que move tuas cortinas,
no perfume das rosas
que ainda levarás à minha campina.
As mesmas rosas do nosso amor,
que floresciam no riso e na dor.

Será somente o meu corpo
que descansará.
Minha alma…
não sei onde estará.
Mas esperarei tuas visitas
no meu silêncio,
talvez com rosas
as mesmas rosas
que te levei por tantos anos
para enfeitar a nossa vida
e que agora trarás
para enfeitar o meu repouso,
o meu sono eterno.
(Assim creio…
mas pouco sei dessa viagem.)

Perdoa-me, minha senhora,
eu estava cansado demais
para te dizer adeus.
Preferia não dizer adeus.

Não quis partir antes de ti,
mas os tempos não pedem permissão.
E amar também é aceitar
o compasso invisível da criação.
não suportaria teu sofrimento,
nem o teu isolamento,
pois não estarei por perto
para te abraçar,
nem para enxugar tuas lágrimas
como sempre fiz,
nem para te dar conforto
nos meus braços.

Minha senhora,
eu não queria partir,
não queria ir antes de ti.
Não posso te pedir
para irmos juntos
seria egoísmo.
Mas tampouco queria te abandonar.

Perdoa-me,
minha senhora,
não te renego,
não te esqueço.

Vou para além,
não sei para onde.
Talvez esteja em algum lugar
entre o tempo e o infinito.
Mas crê:
eu te esperarei para sempre,
minha senhora.


  autora: Isabel van Gurp












































domingo, 12 de agosto de 2012

Através dos Teus Olhos








Através dos teus olhos
vejo o brilho da estrela cadente
que cai lenta na minha vida,
iluminando, aos poucos,
meu céu carente.

Através…

Através dos teus olhos
enxergo a existência
de um poema gravado
em metal incandescente.

Através…

Através das letras
nasce a arquitetura do olhar,
do amor à primeira vista,
do impossível de negar.

Através…

Através de uma magia
sinto-me menina livre,
leve, solta,
pronta para sonhar.

Através…

Através do teu olhar
vejo o sol despertar
de um sono antigo,
adormecido em algum lugar.

Através…

Através dos bosques cheios de vida,
no piscar dos teus olhos
sinto teu esplendor
invadir meu jardim fértil de amor:
na beleza das flores,
na solidez da terra,
no encanto das tulipas.

Sinto-me primavera.

Através…

Através das rosas e das prosas,
das orquídeas, das ervas daninhas,
das camélias livres no limiar,
onde o girassol se abre
em infinitas inflorescências.

Através…

Através das abelhas que desenham a colmeia,
beijando meu corpo como libélulas livres 
livres, livres, livres 
livres para dançar.

Mesmo entre as bromélias,
voam, sugam meu espírito,
levam-me até ti…
e me devolvem a mim.

Através…

Através da vida,
necessito do teu olhar
para viver,
como as flores necessitam de água
para se banhar na chuva
e lavar a alma.

Através…

Através dos teus olhos
sinto o cheiro da terra
depois do vendaval,
com toda a magia das dores
e dos desamores,
trazendo à tona
a paixão do meu existir.

Nos teus olhos
vejo o infinito do oceano,
e sou apenas a gota do temporal
que se transforma em mar.

Através…

Através da vida,
reconheço os cinco elementos:

o fogo do sol  meu afago;
a terra do meu jardim, meu repouso;
a madeira que abriga o tempo;
a água que vira rios
e deságua no mar;
e o metal que não corrompe
nem a pureza do amor,
nem a inocência de um menino,
nem o meu querer.

Nas noites claras de estrelas,
depois de um dia inteiro de luz,
descansa, meu rei:
a noite está iluminada.

Pois através de ti
há luz na minha vida.



autora: Isabel van Gurp




































segunda-feira, 16 de julho de 2012

Assim, Eu Sou







Meu coração envia mensagens
que meus olhos nem sempre veem,
mas minha alma sente.
Eu escrevo no papel
enquanto a razão tropeça nas palavras.
Meus ouvidos escutam
aquilo que desejam ouvir,
meus sonhos interpretam
a minha própria realidade.

Como poeta,
eu viajo na vida
de um jeito abstrato,
transformo fantasia em morada
e a trago para dentro de mim

Versos 

Assim, eu sou feliz.
Assim, eu sei ser mulher.
Assim, eu sou poeta.

Invento estrofes
para decifrar minha paixão,
ouço contos suaves,
escrevo histórias tristes,
e faço da poesia
a tradução da minha alma.

Assim, eu sou menina.
Assim, eu sou mulher.
Sonho acordada durante o dia,
e nas noites
espero meu príncipe encantado.
Sofro por um amor
que ainda não sei se é real,
mas sigo buscando,
entregue a uma doce ilusão.

Uma ilusão
que nasce dentro de mim:
nos meus sonhos,
nas minhas histórias,
nas minhas poesias.

Eu crio a minha realidade,
acredito em finais felizes,
em amor eterno,
em sexo com sentimento
e até na morte por paixão.

Assim, eu sou mulher.
Assim, eu sou menina.
Assim, eu sou poeta.

Assim,
eu sou feliz.

Meu coração envia sinais

que meus olhos fingem não ver,
mas minha alma lê em voz alta.
Escrevo para não enlouquecer,
minha razão tropeça,
meus desejos assumem o comando.

Meus ouvidos escutam promessas,
meus sonhos distorcem verdades,
e eu viajo na própria vertigem
do que sinto.

Sou mulher de carne,
sou poeta de incêndio,
sou menina ainda quando sangra a esperança.

Invento poemas para sobreviver ao amor,
ouço histórias que me atravessam,
escrevo dores que ninguém vê.
Acordo sonhando,
adormeço desejando.

Sofro por um amor
que talvez nem exista,
mas que me consome inteira.
Ainda acredito em encontros absolutos,
no amor que arranca do chão,
na paixão que não pede desculpas.

Assim, eu sou mulher.
Assim, eu sou ferida e força.
Assim, eu sou poeta.
Assim, eu ainda acredito.

Acredito no que não vejo,
em finais que ainda não vivi,
em amores que podem não durar,
mas sempre deixam marca.

Assim, eu sou mulher.
Assim, eu sou menina.
Assim, eu sou poeta.
Assim, eu sigo e sendo.


autora: Isabel van Gurp




 



sexta-feira, 6 de julho de 2012

Última Estação







Embalei-me nos gritos
dos surdos da madrugada,
na dança sem ritmo
dos loucos asfixiados.

Entreguei-me por muito,
não voltei por nada.
Desisti sem tentar,
envolvi-me por tentar.
Entrei numa onda.

Senti meu corpo
voar pelo espaço,
minha mente estilhada
em mil pedaços,

sem deixar rastros,
nem partículas do querer.
Eu estava louca 
o que ficou para trás
foi quase nada,
ou pouco demais para ser alguém.

Poucos sabem,
mas pouco importa
quem sou.
Talvez eu seja
a sobra dos réus,
uma sombra na estrada,
mesmo não sendo ninguém.

Não sou mais dona de mim,
do remanescente de alguém.
Desisti sem tentar,
envolvi-me por aventurar.

O que me prometeram
era uma viagem
sem piloto,
sem ninguém.
E eu sabia, de antemão,
que a última estação
era no esgoto.

Embalei-me nos gritos
dos viciados,
na euforia comprada
por alguns trocados,
migalhas de pó
na miséria alheia
de uma sociedade
que finge não ver.

Senti-me poderosa
no império do menos,
na alegria do meu luto,
quando embarquei
no vagão
que me levava
à última estação:

Estação Esgoto.

Esparrela sem mim,
embora espedaçada
no vagão,
na euforia do nada.



autora: Isabel van Gurp





Esse poema eu dedico
A todos jovens que se entrega no caminho que quase sem volta....
Há um grande amigo
Chamado Ricardo que destruiu sua vida por causa das drogas....


Todas as mães, famílias que perderam seus filhos....para esse mal que eu chamo a pior droga do século

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Nos Tempos das Redes





Nos tempos das redes
fui lançada ao mar
sem saber nadar.

Fiquei presa nas fibras invisíveis,
quis fugir do encanto,
mas já estava enredada
nos teus feitiços.

Delgada foi a porção da magia
que chamaste de amor.
Uma dose mínima,
suficiente para me embriagar.

Sem perceber,
caí na rede de cerco,
na linha do tempo,
capturada num gesto,
num clique.

Perdi a noção do risco.
Fui fisgada pela boca,
como peixe em noite de lua cheia,
quando o mar prateia
e o sol ainda se esconde
no limite do horizonte.

Sem perceber,
abri múltiplas portas,
criei caminhos falsos
para alcançar teu rastro.

Esqueci que eu era sereia.
Caí na tua rede
longe dos teus olhos,
que me seguem sem me ver.

Onde quer que eu vá,
sinto tua vibração:
uma rede de arrasto
envolvendo corpo e mente.

Sinto o cheiro do mar,
do pescador,
escuto tua voz
em cada sinal.

Estou presa.

Procuro teu rosto na tela,
teu vestígio ativo,
teus traços espalhados
em superfícies luminosas.

Essa paixão me desestabiliza:
perdi o chão,
perdi a razão.

Viciei em te encontrar
num mundo que não me toca.

Perco minutos, horas, dias
nessa emboscada silenciosa.
Abro mensagens
esperando teu nome.
Acendo a espera
por um sinal teu.

Sei que estás presente,
em algum lugar do fluxo,
e retorno sempre
às tuas palavras.

Leio teus rastros
como quem lê oráculos.
E faço o pior:
crio máscaras
para te vigiar.

Morro de ciúmes
de presenças alheias,
de vozes que se aproximam,
de vidas que te alcançam.

Teu espaço virou meu labirinto.
Leio cada gesto,
cada silêncio,
cada ausência.

Me entreguei.

Nos tempos das redes,
fui lançada ao mar
sem saber nadar.


autora: Isabel van Gurp






sexta-feira, 8 de junho de 2012

Sol da minha terra








O Sol da Minha Terra

O sol que brilha na minha terra

nasce atrás do horizonte,

sobre águas claras,

desenhando os contornos dos morros

e colorindo as favelas

com tons de vermelho,

de amarelo

e de fogo alaranjado.

Vem devagar,

alastrando luz pelo céu,

erguendo-se como um deus antigo

que sobe ao seu altar.

Pinta o oceano,

avermelha o azul do mar,

e se eleva soberano,

como um Zeus tropical,

conquistando os morros

com suas cores douradas.

Espiritualiza o verde dos matos.

Desperta os pássaros

que celebram sua chegada

com cantos de alegria.

Devolve vida à atmosfera.

Aquece a terra.

Invade as frestas das janelas

e espalha-se pelas ruas

da cidade que ainda sonha

sob a proteção dos anjos.

O sol que brilha na minha terra

não nasce quadrado.

Não se esconde por longas noites.

Não teme nuvens escuras.

Nem se rende às estações.

Mesmo quando a chuva cai,

ele encontra um jeito de permanecer.

Mistura sua luz às gotas

e inventa arco-íris.

Pontes de cor

suspensas entre o céu e a terra.

Como notas musicais

escritas no infinito,

para lembrar aos homens

que a beleza ainda existe.

O sol da minha terra

não ilumina apenas os dias.

Ilumina a alma

de quem aprendeu a crescer

sob seu calor.

E mesmo quando estou distante,

é sua luz

que continua amanhecendo

dentro de mim.



autora: Isabel van Gurp














sexta-feira, 25 de maio de 2012

Flutuo










Sinto meu corpo
ceder nas tuas mãos,
escorrer lento entre teus dedos
que sabem onde tocar,
onde acender
o fogo que me consome.

Teu toque não pede
domina.
Meu corpo obedece
antes mesmo do pensamento,
entregue, vulnerável,
presa ao desejo
que me desnuda por dentro.

Fico à mercê
das tuas vontades,
da tua fome.
Semi-hipnotizada,
deixo que me tomes
como quem sabe
que será lembrado na pele.

Tu me tens
num instante bruto,
num golpe preciso,
e me levas ao limite
onde prazer e perda
se confundem.

E então vais embora.

Fico só,
tremendo ainda,
com o corpo quente
e a alma exposta,
dividida entre a dor do abandono
e a vertigem do amor.

Ainda sinto
o calor das tuas mãos
gravado em mim,
como marca que não se apaga.

Teus dedos continuam
a me percorrer na memória.
Murmuro teu nome
baixo,
quase um pedido,
quase uma rendição.

Sei que posso cair de novo,
sei que é armadilha,
mas desejo não aprende
repete.

Mais uma vez me deixei levar
pela tua persuasão,
flutuei nas tuas mãos,
alcancei o paraíso
com o corpo em chamas.

E mais uma vez
fui deixada no fogo,
ardendo sozinha
no inferno da paixão,
morrendo de amor
e ainda querendo mais.

                  

Autora: Isabel van Gurp 




Sussurro

Teu toque
me desarma.

Entre teus dedos
me perco
sem pedir socorro.

Ardo em silêncio.
Te sigo
até onde não prometes ficar.

Partes.
Fico.

Ainda quente.
Ainda aberta.
Ainda tua
no que restou de mim.


Autora: Isabel van Gurp