Perdoa-me, minha senhora,
terei que partir agora.
Deixo-te as nossas lembranças,
as nossas fotos,
já desbotadas pelo tempo,
mas ainda vivas
na história que fomos.
História de uma vida
guardada nas dobras da memória.
Perdoa-me, minha senhora,
eu parto em desalento.
Sofro por te deixar.
Lutei todos os minutos
para ficar.
Perdoa-me, minha senhora,
eu parto em silêncio sagrado.
Lutei em cada segundo
para permanecer ao teu lado.
Mas há chamados que não se recusam,
portais que só a alma atravessa,
e a vida, quando vira prece,
também se despe da matéria espessa.
Escolhi ficar perto de ti,
mesmo depois do véu.
Será meu corpo na terra,
mas meu sopro… seguirá no céu.
Talvez eu esteja no vento
que move tuas cortinas,
no perfume das rosas
que ainda levarás à minha campina.
As mesmas rosas do nosso amor,
que floresciam no riso e na dor.
Será somente o meu corpo
que descansará.
Minha alma…
não sei onde estará.
Mas esperarei tuas visitas
no meu silêncio,
talvez com rosas
as mesmas rosas
que te levei por tantos anos
para enfeitar a nossa vida
e que agora trarás
para enfeitar o meu repouso,
o meu sono eterno.
(Assim creio…
mas pouco sei dessa viagem.)
Perdoa-me, minha senhora,
eu estava cansado demais
para te dizer adeus.
Preferia não dizer adeus.
Não quis partir antes de ti,
mas os tempos não pedem permissão.
E amar também é aceitar
o compasso invisível da criação.
não suportaria teu sofrimento,
nem o teu isolamento,
pois não estarei por perto
para te abraçar,
nem para enxugar tuas lágrimas
como sempre fiz,
nem para te dar conforto
nos meus braços.
Minha senhora,
eu não queria partir,
não queria ir antes de ti.
Não posso te pedir
para irmos juntos
seria egoísmo.
Mas tampouco queria te abandonar.
Perdoa-me,
minha senhora,
não te renego,
não te esqueço.
Vou para além,
não sei para onde.
Talvez esteja em algum lugar
entre o tempo e o infinito.
Mas crê:
eu te esperarei para sempre,
minha senhora.
autora: Isabel van Gurp
